Protagonismo social no abastecimento alimentar: seminário da Ação Coletiva Comida de Verdade reunirá experiências das cinco regiões brasileiras

28/10/2020

Produção, comercialização e redes de doação de alimentos agroecológicos, políticas públicas, cooperativismo e a força da atuação em redes. Sob o protagonismo da juventude rural, periférica, indígena e feminina, esses e outros eixos de atuação serão dialogados a partir das 17h desta quinta-feira (29), no seminário “Protagonismo social no abastecimento alimentar: histórias inspiradoras em tempos de pandemia”, da Ação Coletiva Comida de Verdade. 

Sob a mediação do coordenador executivo da AS-PTA Agroecologia e Agricultura Familiar, Paulo Petersen; da articuladora da Ação Coletiva Comida de Verdade pela região Sudeste, Luísa Melgaço; da Assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil, Helena Rodrigues; e do articulador da Ação Coletiva Comida de Verdade pela região Nordeste, Giuseppe Bandeira, o seminário contará com a presença de representantes de experiências inspiradoras mapeadas pela Ação Coletiva e espalhadas pelas cinco regiões do país. Para embalar a roda de conversa com cultura e poesia, o encontro terá a inspiradora presença do poeta Antônio Marinho, de São José do Egito, em Pernambuco. 

Serão apresentadas cinco experiências de abastecimento alimentar, que embora aconteçam em diferentes territórios e sejam conduzidas por diferentes atores/atrizes sociais, apresentam pontos de convergência no campo de atuação, como o protagonismo juvenil, feminino, negro e indígena, e o uso das ferramentas digitais de comunicação enquanto força mobilizadora. Márcio Santos é assessor técnico do meio ambiente de Marechal Thaumaturgo, no Acre, e abordará o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) no município. Gisele Ferreira, militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração em Minas Gerais (MAM), falará sobre sua experiência na Campanha Periferia Viva, plataforma digital que tem mobilizado uma rede de solidariedade no território mineiro.

No Ceará, o jovem feirante Arildo Soares apresentará a experiência da Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca. A jovem indígena Watatakalu Yawalapiti, coordenadora da ATIX Mulher e membro do Movimento Mulheres do Xingu, falará sobre as redes de solidariedade junto aos povos indígenas no Mato Grosso. A experiência da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt) na comercialização virtual de comida de verdade será abordada pela jovem Amanda Schwanck, coordenadora administrativa da cooperativa, que fica localizada no Rio Grande do Sul.

Redes de solidariedade

Os impactos da pandemia da Covid-19 são ainda imensuráveis em diversas regiões do Brasil, principalmente para pessoas já afetadas pela desigualdade social e que enfrentam dificuldade de acesso a direitos básicos, como à alimentação adequada e saudável. No intuito de reverter esse cenário de injustiças e minimizar o sofrimento de muitas famílias moradoras da periferia de Minas Gerais, nasceu a campanha Periferia Viva. Através da comunicação digital, a campanha tem mobilizado uma série de coletivos e movimentos sociais para a atuação solidária em rede junto às famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica nas periferias mineiras. 

Militante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração, Gisele Ferreira mobiliza a campanha na Zona da Mata Mineira, mais especificamente, nas regiões do Caparaó, da Serra do Brigadeiro e de Viçosa. Para ela, tão importante quanto a atitude de se solidarizar com quem mais precisa de ajuda, é ter o cuidado com a escolha do que será doado e a maneira como as doações acontecem. 

“Toda família deveria ter direito a se alimentar dignamente, mas a gente sabe que nem sempre é assim que acontece. Então, estamos falando de famílias que já tinham dificuldades, que só se intensificaram com a pandemia, porque muita gente perdeu o serviço ou teve redução de salário. Através da campanha, a gente está fazendo pelo menos um pouco, construindo o debate sobre o que é a comida de verdade. A gente poderia montar cestas básicas, mas monta o kit da agricultura familiar, sem agrotóxicos e com produtos de alto valor nutricional. Na campanha, vimos uma forma de ajudar essas pessoas e ao mesmo tempo fomentar a agricultura familiar de base agroecológica, principalmente”, afirma Gisele.

Ela destaca ainda a força do sentimento de solidariedade e do trabalho em coletivo diante de todos os desafios. “Em meio a tanto caos que essa pandemia trouxe para todo mundo, a gente percebe que existe uma rede de solidariedade, existem pessoas que se preocupam, e isso é o que inspira. E tem gente pensando não só em si mesmo, mas também no coletivo. A Periferia Viva mostra a importância dos movimentos sociais em cada região. Em situações de vulnerabilidade, quem está disposto a abraçar as causas são esses movimentos”, complementa Gisele, que estará presente ao seminário para falar mais sobre a iniciativa.

Cultura e patrimônio alimentar

A vitalidade do feirante Arildo Soares é contagiante. Há três anos atuando na Feira Agroecológica e Solidária do município de Itapipoca, no Ceará, ele também coordena o grupo de beneficiamento do coco na própria comunidade, Sítio Coqueiro, no assentamento Maceió, e ainda faz parte do grupo cultural Balanço do Coqueiro. Diante do isolamento social imposto pela pandemia da Covid-19 e das restrições à realização de feiras de rua, foi na mobilização para estreitar os laços entre produtores e consumidores que ele encontrou uma maneira de garantir que a comida de verdade continuasse circulando durante a pandemia.

Foto: Flávia Cavalcante

“A feira acontecia semanalmente na Praça da Catedral e, de uma hora para outra, a Covid-19 fez tudo parar. Então, a equipe do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (CETRA), por meio de uma reunião online com os agricultores, viu que seria possível fazer uma feira virtual. E, mesmo os agricultores tendo dificuldade em se comunicar através da internet [no início], eles conseguiram avançar. Era pelas redes sociais que a CETRA se comunicava com os agricultores em busca de seus produtos. A comunicação na feira é primordial, seja na divulgação nas rádios, nas nossas plataformas digitais ou na própria conversa entre feirante e consumidor e foi essa comunicação entre equipe técnica e feirantes que fez a feira virtual dar certo, abrangendo um outro público que não tinha condições de ir à feira presencial”, explica Arildo, que também é bolsista do CETRA através de um projeto de pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Para ele, o acesso à comida de verdade vai muito além de saciar a fome. “A comida é um dos fatores mais importantes na vida do ser humano. Comer é celebrar a vida. Quando falamos em comida de verdade, estamos falando de sabor, qualidade, nutrição, identidade, patrimônio alimentar. Comer comida de verdade é sem dúvidas um ato revolucionário, e é por isso que buscamos fortalecer esse ato durante esse período de pandemia”, explica o jovem feirante.

Armazém virtual

O uso da comunicação digital enquanto ferramenta mobilizadora e transformadora é um ponto convergente entre as experiências que estarão presentes ao seminário. No Rio Grande do Sul, as potencialidades da comunicação digital também têm garantido a comercialização de comida de verdade a partir da iniciativa da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt).

Foto : Ubirajara Machado

Fundada em 2006 por agricultoras e agricultores familiares, a cooperativa oferta mais de 6,4 mil toneladas de 88 variedades de alimentos, sem atravessadores. “No início da nossa venda direta aos clientes, fazíamos tudo por whatsapp. Isso foi primordial para a aproximação com os clientes, pois eles nos conheceram e confiaram no nosso trabalho. No nosso armazém virtual, temos produtos de outras cooperativas, o que nos ajuda a divulgar e agregar nosso leque de produtos, fazendo com que o cliente diminua ainda mais sua necessidade de ir ao supermercado”, afirma Amanda Schwanck, coordenadora administrativa da cooperativa, onde coordena também o grupo de juventude rural.

Ao unir o protagonismo juvenil e feminino às potencialidades da comunicação digital, Amanda percebe que a Coomafitt tem traçado caminhos prósperos, mesmo diante dos desafios trazidos pela pandemia. “Aproximar o fornecedor e o cliente, saber de onde o alimento vem, como é produzido, é o nosso legado. Temos envolvido o trabalho jovem, pois muitos que estudavam fora retornaram para casa na pandemia, além de destacar o trabalho feminino no campo que nem sempre foi tão valorizado. Um processo ainda novo, mas que está dando certo e só temos a crescer”, destaca a coordenadora, que participará do seminário junto com as representações das outras experiências mapeadas em diferentes regiões do país. 

Escuta dos territórios

Helena Rodrigues é assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil e doutoranda em Ciências Sociais pelo Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ). Membro do Comitê Gestor da Ação Coletiva Comida de Verdade, ela será uma das mediadoras do seminário, nesta quinta. Para Helena, o formato de ‘roda de conversa’, pensado para a abordagem das experiências, reforça um dos objetivos do mapeamento da Ação Coletiva, que é dar visibilidade às ações de solidariedade e fortalecimento dos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais que em grande parte sempre aconteceram nos diferentes territórios. 

“Quais as semelhanças entre um arranjo de comercialização no Sul do Brasil e no Nordeste do país? Estamos falando de  experiências que estão em diferentes regiões brasileiras, com suas especificidades ecológicas e sociais, mas que também compartilham de muitas similaridades. Como essas experiências podem aprender entre si e se fortalecerem? Por isso, a escolha da metodologia deste seminário está associada a criar um espaço de escuta dos territórios, no qual a gente possa aprender com os diferentes arranjos criativos que foram organizados pela sociedade civil e que têm garantido alimentos de qualidade a quem precisa. Criar esse momento de escuta da vida no cotidiano, da prática cotidiana nos territórios, que vai desde cultivar os alimentos, colocá-los num carro, garantir a distribuição ou o rearranjo das feiras diante do isolamento social”, destaca Helena.

Ela explica também que os/as mediadores/as do seminário terão o importante papel de lançar reflexões sobre as convergências e inspirações apontadas pelas vozes dos territórios presentes ao seminário. “As experiências mapeadas demonstram a rapidez e a capacidade que a sociedade civil organizada tem de responder a uma crise, que não é apenas sanitária, mas também ecológica, política e econômica. Então, o que a gente consegue evidenciar nessas experiências é como atores engajados numa mesma causa, que é garantir alimentação adequada, conseguem construir estratégias rápidas, que em muitos casos envolvem transformações de práticas que já eram feitas há um longo tempo, como é o caso de uma feira presencial totalmente organizada para ser assim, ser repensada de uma forma online. Além disso, o que essas experiências nos trazem também é que não se trata apenas de uma doação de alimentos qualquer, mas de um engajamento político, de uma conexão através do alimento entre campo e cidade, entre campo, cidade e as periferias”, afirma a assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil.


Seminário

O seminário “Protagonismo social no abastecimento alimentar: histórias inspiradoras em tempos de pandemia” será realizado às 17h desta quinta-feira, 29 de outubro, com transmissão pela página da Ação Coletiva no Facebook. Este será o quarto seminário que compõe o ciclo de debates realizado pela Ação Coletiva com o intuito de fortalecer o mapeamento das experiências de abastecimento alimentar com comida de verdade no Brasil, bem como as discussões sobre os efeitos da pandemia pela Covid-19 nos processos de fortalecimento de sistemas agroalimentares saudáveis e sustentáveis.

O formulário para o cadastro de experiências de abastecimento alimentar segue aberto até este sábado, 31 de outubro. 

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Equipe de comunicação/Periferia Viva

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