Resiliência e protagonismo social: iniciativas de abastecimento alimentar nos diversos cantos do Brasil

04/11/2020 (poema atualizado em 12 de novembro de 2020 às 14:54)

“Em um mundo doente, envenenado
Num planeta que morre e se consome
A primeira atitude de mudança
É cuidar do alimento que se come
(…)
No agir de uma forma construtiva
Pelo bem e a luz na humanidade
É que surge nossa Ação Coletiva
Trabalhando comida de verdade”*

Antônio Marinho*

Inspiradas e inspirados pela beleza dos versos de Antônio Marinho, poeta de São José do Egito, em Pernambuco, jovens protagonistas de iniciativas de abastecimento alimentar das cinco regiões do Brasil falaram sobre as riquezas e os desafios enfrentados nos territórios para promover a circulação da comida de verdade para quem mais precisa. Elas/eles participaram do seminário “Protagonismo social no abastecimento alimentar: histórias inspiradoras em tempos de pandemia”, realizado pela Ação Coletiva Comida de Verdade na tarde da última quinta-feira, 29 de outubro.

São experiências que impressionam pela diversidade de ações. Envolvem comercialização, feiras agroecológicas, políticas públicas, redes de solidariedade, entre outras. Apesar da heterogeneidade que as particularizam, também apresentam convergências nos sentidos, nas práticas e nos sentimentos de solidariedade e de irmandade que guiam os diversos exemplos de autenticidade. As experiências abordadas no seminário chamaram atenção pela força do protagonismo juvenil, feminino, negro e indígena, e o uso das ferramentas digitais de comunicação enquanto potência mobilizadora.  

Sob a mediação do coordenador executivo da AS-PTA Agroecologia e Agricultura Familiar, Paulo Petersen; da articuladora da Ação Coletiva Comida de Verdade pela região Sudeste, Luísa Melgaço; da Assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil, Helena Rodrigues; e do articulador da Ação Coletiva Comida de Verdade pela região Nordeste, Giuseppe Bandeira, foram apresentadas cinco experiências, uma de cada região do país:

A execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) de Marechal Thaumaturgo, no Acre, pelo assessor técnico do meio ambiente do município, Marcos Santos; a rede de mobilizações da Campanha Periferia Viva, na Zona da Mata mineira, pela integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração em Minas Gerais (MAM), Claudineia Aparecida; a Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, no Ceará, por Arildo Soares; as redes de solidariedade junto aos povos indígenas no Mato Grosso, pela jovem indígena Watatakalu Yawalapiti, coordenadora da ATIX Mulher e membro do Movimento Mulheres do Xingu; e a iniciativa da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt) pela jovem Amanda Schwanck, coordenadora administrativa da cooperativa, que fica localizada no Rio Grande do Sul.

Assim como muitas das 305 experiências mapeadas pela “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”, as cinco iniciativas destacadas no seminário representam reações rápidas por parte de grupos, coletivos e/ou comunidades que já atuavam no sentido de garantir o acesso à comida de verdade, mas que diante das orientações de isolamento social causadas pela pandemia da Covid-19, tiveram que lidar com o fechamento de espaços de comercialização e, em alguns casos mais delicados, com a fome e a vulnerabilidade social. Foi na força da coletividade e nos laços comunitários que encontraram alternativas para superar os desafios impostos. 

Resiliência 

” O nosso bravo Nordeste
Esta luta também toca
Na Feira Agroecológica
Que temos em Itapipoca
Fazendo o óleo de coco
E neste tempo tão louco
A feira on-line criada
Conectou produção
Consumo e população
E a luta segue logada
(…)
O Centro-Oeste é frutífero
No quem tem a ensinar
Xingu com Atix Mulher
E os Guarani Kaiowá,
A Geladeira e a Chapada
Solidárias na parada
Da partilha deste chão
E a solidariedade
Ganhando eco e verdade
Nos passos da Rede Pão
As ações feitas no Sul
Engrossam nossa corrente
Com o grupo Mãos na Terra
E o Cesta Consciente
Um com a Real Ecovida
Certifica quem na lida
Trabalha com a juventude
E o outro leva alimento
Pra quem vive em sofrimento
E espera que Deus ajude
São exemplos desta luta
Ações que nos energizam
Nos contam belas histórias
Porque sonhos concretizam”

Antônio Mariinho

A jovem indígena Watatakalu Yawalapiti atua na Associação Terra Indígena Xingu, no estado do Mato Grosso. A instituição, que representa 16 etnias em mais de 114 aldeias do Xingu – número que aumentou consideravelmente com a pandemia -, precisou conduzir uma forte mobilização para garantir o alimento, a saúde e itens estruturais para que os povos indígenas pudessem enfrentar a pandemia. De acordo com Watatakalu, que coordena a ATIX Mulher e é membro do Movimento de Mulheres do Xingu, uma das maiores dificuldades no trabalho de mobilização foi a comunicação e a sensibilização acerca da relação entre saúde e alimento.

“A preocupação inicial na Associação era mais relacionada às demandas de combustível, funcionamento dos postos de saúde, medicamentos, produtos de higiene e ferramentas. Ouvíamos de muitos homens que o alimento nada tinha a ver com a saúde e que não precisávamos de doações. Os homens ficaram ofendidos porque, para eles, era uma insinuação de que não estavam trabalhando na roça. Mas, quando a doença chegou nas aldeias, muitos não conseguiram trabalhar para garantir o alimento, não conseguiram mais sair para pescar e então entramos na seguinte questão: se as pessoas não se alimentarem, como vão nutrir o corpo delas? Adianta encher as pessoas de medicamentos se o que realmente estabelece o nosso corpo não está vivo?”, destacou Watatakalu.

Ela explicou ainda que a força mobilizadora das mulheres foi o ponto diferencial para lidar com os impactos da pandemia. “Nós, mulheres, fizemos uma vaquinha online, fizemos a divulgação e recebemos doações, temos apoiado as aldeias atingidas com alimentos. As mulheres elaboraram uma lista do que precisariam, como o fubá para fazer mingau, alimentos quentes como abóbora, batata doce, e muitas frutas”, afirmou a jovem indígena. 

Em muitos lugares do Brasil, as feiras de rua foram fechadas ou tiveram que passar por adaptações, por conta da pandemia da Covid-19. Na região Nordeste, a Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca, que há 15 anos funcionava no Ceará, encontrou na comunicação digital uma alternativa para garantir o escoamento e a comercialização dos itens da agricultura familiar produzidos localmente. 

“A realidade de Itapipoca quanto às feiras é parecida com a de muitos outros lugares, que é a forte presença de grupos de risco entre os agricultores da feira [por serem pessoas idosas]. Com isso, a feira teve que parar. Então, a equipe do Centro de Estudos do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador (CETRA), por meio de uma reunião online com os agricultores, viu que seria possível fazer uma feira virtual. Acordamos que o CETRA se responsabilizaria por pegar os itens nas casas dos agricultores e pela produção das cestas. Os agricultores já deixam os itens embalados e a equipe do CETRA pega os produtos e monta as cestas. Nós confeccionamos as peças de divulgação, compartilhamos nas redes sociais e as redes de consumidores fazem seus pedidos”, explicou o jovem Arildo Soares, que há três anos atua na Feira Agroecológica e Solidária de Itapipoca e  também é bolsista do CETRA através de um projeto de pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC). Arildo também coordena o grupo de beneficiamento do coco na própria comunidade, Sítio Coqueiro, no assentamento Maceió, e faz parte do grupo cultural Balanço do Coqueiro. 

No Rio Grande do Sul, as potencialidades da comunicação digital também têm garantido a comercialização de comida de verdade a partir de iniciativa da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Itati, Terra de Areia e Três Forquilhas (Coomafitt). Fundada em 2006 por agricultoras e agricultores familiares, a cooperativa oferta 88 variedades de alimentos, sem atravessadores. De acordo com Amanda Schwanck, coordenadora administrativa da cooperativa, a atuação da juventude e das mulheres tem fortalecido as redes de produção e comercialização.

“Sempre tivemos a preocupação de levar comida de verdade aos nossos clientes, de fortalecer a agroecologia e a economia solidária. Com a pandemia, realizamos uma série de reuniões e planejamentos e resolvemos inovar com o Fitt Delivery e passamos a fazer entregas em nove cidades do Rio Grande do Sul. Recebemos os pedidos pelo whatsapp, montamos as cestas e fazemos a distribuição uma vez por semana. Com o tempo, os clientes pediram para aumentarmos a diversidade de itens, então buscamos outras cooperativas para ampliar a oferta, respeitando sempre o princípio da sazonalidade dos alimentos e garantindo o circuito curto do alimento. Foi uma experiência criada pelos agricultores, pelos jovens e pelas mulheres, para levar comida de verdade fresquinha para a mesa de nossos clientes, pois o alimento que é passado por mais processos não chega na mesma qualidade”, explicou Amanda, que também coordena o grupo de juventude rural.

Solidariedade

“Do Norte vêm três exemplos
Que nos ajudam a pensar
O Programa que abastece
O ambiente escolar,
A cozinha extrativista
Com esmero de artista
Temperando novos planos
E ao comércio dando a mão
Escoando a produção
Tem os Paneiros Canbanos
(…)
Do Sudeste dois exemplos
Mostram iniciativa
A implantação do PNAE
E o Periferia Viva
Um é a mão do Estado
Outro o povo articulado
Duas batalhas homéricas
Pelo abastecimento
E a chegada de alimento
Pra famílias periféricas”

Antônio Marinho

A agilidade nas ações coletivas também foi fundamental para garantir a comida de verdade junto à população vulnerável de Marechal Thaumaturgo, no Acre, município com cerca de 19 mil habitantes. De acordo o assessor técnico do meio ambiente do município, Marcos Santos, a alternativa encontrada foi adaptar a execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a partir do fechamento das escolas. As compras institucionais dos produtores rurais que antes eram entregues nas escolas, passaram a ser centralizadas em um ponto de entrega para distribuição entre as famílias vulneráveis.

“Com a pandemia e o fechamento das escolas, dialogamos com a comunidade escolar e então adotamos outras estratégias para manter as famílias nas propriedades, produzindo e gerando renda. Adotamos uma escola como ponto de entrega para recepcionar os produtos, pensando na segurança da equipe e dos produtores. Eles levam os produtos, a equipe composta por nutricionistas e funcionários da secretaria de educação e de meio ambiente montam os kits, todos com produtos da agricultura familiar, e distribuímos para as famílias consideradas de vulnerabilidade social no município. Na primeira compra, entregamos 100 kits, na segunda já foram 150, com itens como farinha de mandioca, melancia, inhame, arroz regional, alface, couve, pepino, feijão”, afirmou Marcos.

Na Zona da Mata mineira, a insegurança alimentar e a vulnerabilidade social têm sido minimizadas pelas mobilizações da Campanha Periferia Viva, iniciativa que, através da comunicação digital, tem aglutinado uma série de coletivos e movimentos sociais para a atuação solidária em rede junto às famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica nas periferias mineiras, mais especificamente nas regiões do Caparaó, da Serra do Brigadeiro e de Viçosa. A campanha acontece em todo o Brasil e, em Minas Gerais, tem sido conduzida pelo Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM). 

“A comunicação é importantíssima para a atuação das redes darem certo. Nós mobilizamos arrecadações financeiras, fazemos parcerias com instituições, cadastramos as famílias na periferia que estão com dificuldade de se alimentar e fazemos um levantamento dos agricultores e agricultoras que estão com dificuldade de escoar a sua produção. Muitos deixaram de vender no PAA e PNAE devido à pandemia, outros não podem mais vender na feira. Os kits então são montados apenas com produtos da agricultura familiar e itens de higiene como álcool em gel e sabão caseiro produzido a partir de óleo reutilizável”, afirmou Claudineia Aparecida, representante do MAM e da Campanha Periferia Viva.

Para ela, os diálogos junto às populações do campo e da cidade têm feito a diferença durante as ações de doação. “O nosso trabalho vai além da ação assistencialista, porque ao promover as doações, fortalecemos o diálogo com essas famílias sobre a importância do alimento saudável, da agricultura familiar, da reforma agrária, e sensibilizamos sobre os impactos da mineração. Onde há mineração, não há agricultura familiar. A região é mapeada por diversos mineradores e ao mesmo tempo é um polo agroecológico, essa é uma imensa contradição. Lutamos para que a agricultura familiar resista e as pessoas tenham alimentos de qualidade nas suas casas”, explicou Claudineia Aparecida. 

Protagonismo social

“E assim nosso grito canta
Para defender quem planta
Com sustentabilidade
A humanidade está viva
Querendo a mão construtiva
Como essa iniciativa
Da nossa Ação Coletiva
Com Comida de Verdade!”

Ântônio Marinho

De acordo com Paulo Petersen, coordenador executivo da AS-PTA Agroecologia e Agricultura Familiar e da Ação Coletiva Comida de Verdade, é a diversidade e, ao mesmo tempo, as unidades e convergências entre as experiências que dão coerência ao horizonte de transformação dos sistemas agroalimentares. 

“O que nós ouvimos são recados inspiradores que vêm dos territórios e que são construídos a partir de ações coletivas. É nesses territórios onde a agricultura familiar e os povos e comunidades tradicionais estão se articulando para segurar o fluxo da comida de verdade e fazendo chegar a diferentes segmentos do povo. A ideia da Ação Coletiva Comida de Verdade é exatamente de retirar aprendizagens, aprender com a ação coletiva das experiências que se multiplicam pelo país. São recados sobre coisas belas sendo construídas em um contexto de grande dificuldade, de hostilidade, violência institucional e invisibilização. A força dessas experiências vem do fato de que são construções locais e são delas que temos que extrair os ensinamentos para pensar a reconfiguração dos sistemas alimentares e das políticas públicas”, afirmou Paulo Petersen. 

Além da configuração dos sistemas alimentares, são ações coletivas como essas que apontam possibilidades para a elaboração e execução de políticas públicas voltadas não só ao fortalecimento da agricultura familiar, mas também ao protagonismo do jovem rural. “A mídia apresenta muito a ideia de que o jovem precisaria terminar o ensino médio e ir para a cidade, quando na verdade o que o jovem precisa é de políticas públicas para que continue produzindo no campo. Eu, com 25 anos, já recebi propostas para trabalhar fora, mas não quero. Hoje tenho um pequeno sítio dentro da propriedade dos meus pais onde planto o que preciso. Inserir a juventude nos processos políticos para que ela possa permanecer no campo e tenha sua própria renda é algo maravilhoso”, afirmou Arildo Soares.

Da mesma forma, a coordenadora da Coomafitt aponta o incentivo ao protagonismo feminino como essencial para o fortalecimento das ações coletivas com comida de verdade. “Somos incentivadas pelos nossos pais a acreditar que a caneta é mais leve que a enxada, que devemos sair pra estudar na cidade.  Porém hoje as mulheres têm papel fundamental nas propriedades [rurais], a mulher é o pilar das organizações, inclusive pelo seu protagonismo na agroecologia”, destacou Amanda. 

*Os versos que embelezaram e enriqueceram o seminário “Protagonismo social no abastecimento alimentar: histórias inspiradoras em tempos de pandemia”, e ilustraram esta matéria, são de autoria do poeta Antônio Marinho, de São José do Egito, em Pernambuco. 

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade

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