Narrativas e percursos em torno da comida de verdade serão debatidos em seminário da Ação Coletiva, nesta sexta

30/09/2020

O percurso do alimento, desde o preparo da terra e o plantio da semente até a refeição no prato, é composto por etapas que se interligam mutuamente e que interferem não só nos aspectos relacionados à organização econômica, ambiental e social, como também na saúde e nos hábitos alimentares da sociedade.

É através de fluxos de comida baseados na produção local e nos circuitos curtos de abastecimento que se estabelece relações mais justas entre os produtores e as pessoas e, portanto, melhor qualidade de vida de todos os envolvidos no processo. 

No entanto, esses são caminhos contrários aos interesses da indústria de produtos alimentícios e do agronegócio, que lucram com a desinformação e com o desmantelamento de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da agricultura familiar e à valorização da soberania alimentar.

É para debater a questão alimentar no contexto contemporâneo, as disputas de narrativas em torno da comida, os aspectos relacionados ao consumo de alimentos, a agenda regulatória e a culinária como prática emancipatória que a Ação Coletiva realizará, nesta sexta-feira, 02 de outubro, o seminário “Sentidos e práticas da comida de verdade: entre a captura e a emancipação”.

Moradora do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro (RJ), a professora, educadora popular e culinarista, Ana Santos1, sente na pele os impactos do enfraquecimento de políticas públicas voltadas à alimentação. Fundadora do Coletivo Alimentação e Saúde e cofundadora do Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM), Ana precisou alterar os rumos do projeto “Arranjo Local Penha”, uma iniciativa com foco nos eixos nutrição, saúde e agroecologia que há cerca de três anos vinha desenvolvendo junto a mulheres assistidas pela Clínica da Família, no RJ. O corte de verbas públicas destinadas à nutrição, antes mesmo da pandemia, pegou as mulheres de surpresa. 

“A partir da cozinha, que é um espaço comum e rotineiro para muitas mulheres na faixa dos 40 a 70 anos, passamos a trabalhar o feminismo e a agricultura urbana. Através de oficinas de nutrição, passamos a repensar juntas os hábitos alimentares e o resgate de plantios. A soberania alimentar passa por isso, nessas construções diárias. No entanto, houve um corte de verbas por parte do município e o setor de nutrição foi um dos mais afetados. Para não encerrar o projeto, saímos da clínica e fomos aos quintais. O que teve seu ponto positivo, pois passamos a intensificar a atuação dentro da própria comunidade. Com a pandemia, o cuidado e o autocuidado tornaram-se mais centrais e as ações passaram a ser mais coletivizadas. Mas os desafios não param, pois em meio a tantas ações assistencialistas nesta pandemia, precisamos fortalecer a reivindicação por políticas públicas efetivas”, afirma Ana, que é uma das convidadas para o seminário.

“É importante reconhecer a comida como um espaço de disputa política.”

Inês Rugani

De acordo com a docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Inês Rugani2, que mediará o debate, o seminário será uma oportunidade de aprofundamento a respeito das múltiplas dimensões do comer como um ato político. “Comer é um ato político no sentido de como você posiciona a comida na sua prática social. É importante reconhecer a comida como um espaço de disputa política, a ação coletiva de consumidores, ativistas, cidadãos em coalizões e iniciativas de redes no sentido de pressionar por políticas públicas que favoreçam a comida de verdade e, também, denunciem e constranjam aqueles atores sociais que têm práticas que comprometem a circulação de comida de verdade”, afirma Inês. 

Informação é essencial quando se fala em alimentação e saúde. Para que as pessoas possam optar conscientemente pela comida que entra nas suas casas, precisam ter acesso a informações claras sobre a procedência e composição dos alimentos, saber se são livres de agrotóxicos, entre outros. No entanto, a publicidade promovida pela indústria alimentícia e rótulos que confundem o consumidor camuflam os impactos de uma alimentação baseada em produtos ultraprocessados, não só para a saúde mas também para o meio ambiente. 

Na visão de um dos convidados para o seminário desta sexta, o docente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e assessor estratégico da ActionAid, Jorge Romano3, a arena discursiva onde se entrecruzam as disputas narrativas em torno do alimento merece atenção. “A alimentação é o centro de uma disputa de sentidos que se insere em uma disputa maior e que tem a ver com tentativas de consolidação de hegemonia por parte do agronegócio e de seus interesses. Análises sobre os discursos do agronegócio mostram as diversas estratégias com que esse setor se apropria da noção de alimento, de economia, de sustentabilidade e constrói suas narrativas. E nós, do lado de cá, na agroecologia, também estamos construindo as nossas narrativas. Então, inserir essa discussão sobre os sentidos e as práticas relativas à comida num debate mais amplo junto aos movimentos sociais e à sociedade civil é fortalecer a agroecologia como alternativa”, afirma Jorge.  

“É importante avançarmos nos debates sobre as medidas regulatórias, para promover o acesso, tanto físico quanto financeiro, das pessoas a uma comida mais saudável e sustentável e que seja produzida pela agricultura familiar.”

Ana Paula Bortoletto


Além do quesito informação, a pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP) e consultora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Paula Bortoletto4, destaca o marco regulatório como ponto-chave para promover o acesso da população à comida de verdade. “Durante a pandemia, passamos a acompanhar incentivos por parte do Estado à construção de imagens mais positivas das grandes empresas de alimentos. Compras públicas sendo aproveitadas para doações de alimentos ultraprocessados e não-saudáveis, contrariando as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, e que colocam essas empresas em um lugar de referência. Por isso é importante avançarmos nos debates sobre as medidas regulatórias, para promover o acesso, tanto físico quanto financeiro, das pessoas a uma comida mais saudável e sustentável e que seja produzida pela agricultura familiar”, destaca Ana Paula, que também comporá o seminário.

A diversidade dos perfis convidados para o diálogo é fundamental para tecer as múltiplas dimensões sociais, políticas e econômicas que compõem a alimentação. Por isso, além de Ana Santos, Ana Paula, Jorge Romano e Inês Rugani, o seminário contará com a ambientação cultural, que já se consagra como um essencial momento de encantamento nos seminários da Ação Coletiva, de Thais Paiva, artista e educadora popular da Escola de Teatro Popular do Rio de Janeiro (RJ). A fala inspiradora, por sua vez, será guiada pela experiência da docente da Universidade de Brasília, Elisabetta Recine4.

Ação Coletiva 

Este será o terceiro seminário que compõe o ciclo de debates realizado pela Ação Coletiva com o intuito de fortalecer o mapeamento das experiências de abastecimento alimentar com comida de verdade no Brasil, bem como as discussões sobre os efeitos da pandemia pela Covid-19 nos processos de fortalecimento de sistemas agroalimentares saudáveis e sustentáveis. A realização de seminários, de pesquisas e o mapeamento das experiências de abastecimento alimentar propostos pela Ação Coletiva, além de levantar reflexões e debates a respeito da alimentação adequada, saudável, livre de venenos e comercializada a preços justos, tem como intuito apontar caminhos para a efetiva transição dos sistemas agroalimentares. 

Para Ana Paula Bortoletto, as ações mapeadas mostram caminhos a serem fortalecidos. “Mapear as experiências de abastecimento alimentar com comida de verdade é uma estratégia forte para facilitar o acesso da população aos alimentos saudáveis e apoiar os pequenos produtores, que têm um desafio ainda maior nesse momento de pandemia para conseguir escoar os seus produtos. Visibilizar essas ações é um dos caminhos necessários para a mudança de chave, para promover um redesenho dos sistemas agroalimentares em favor da comida de verdade, e não dos produtos ultraprocessados. Precisamos mostrar que isso é possível”, afirma Ana Paula.

Em concordância com Ana Paula, Jorge Romano destaca o papel que essas ações apresentam no sentido de inspirar e fortalecer valores essenciais a uma sociedade justa e democrática. “A pandemia tem nos mostrado diversas iniciativas de solidariedade para levar comida de verdade à população que está em situação de empobrecimento, com menos recursos e que está sendo mais afetada pela Covid-19. São ações que associam o alimento a valores, que reforçam o valor da solidariedade com o próximo. Reforçam o sentido mais profundo e amoroso de compaixão, de cuidado, valores fundamentais em uma sociedade conservadora e neoliberal, pautada na meritocracia, no ‘salve-se quem puder’”, reforça o docente da UFRRJ.

É muito fácil participar do mapeamento, basta preencher um formulário disponível na plataforma Agroecologia em Rede (AeR). E, para garantir representatividade territorial, a Ação Coletiva conta com um(a) articulador(a) em cada região do Brasil, cuja missão é incentivar e apoiar o cadastro das experiências. Os interessados em participar do mapeamento podem entrar em contato com o(a) articulador(a) de sua região.

Serviço

Seminário “Sentidos e práticas da comida de verdade: entre a captura e a emancipação”
Data: 2 de outubro, sexta-feira, às 17h (horário de Brasília)
Transmissão pelo Facebook da Ação Coletiva Comida de Verdade


1. Ana Santos é professora, educadora popular, culinarista, fundadora do Coletivo Alimentação e Saúde, co-fundadora e gestora do Centro de Integração da Serra da Misericórdia (CEM), situado no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro (RJ), bolsista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) para o fortalecimento da Feira Agroecológica na UERJ, membro da Rede Carioca de Agricultora Urbana e do Grupo de Mulheres da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro (AARJ). 

2. Inês Rugani é nutricionista, sanitarista, doutora em saúde pública, professora associada do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e docente permanente do programa de pós-graduação Alimentação, Nutrição e Saúde deste instituto.

3. Jorge Romano é antropólogo, doutor em Ciências Sociais, professor do curso de pós-graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e assessor estratégico da ActionAid. 

4. Ana Paula Bortoletto é nutricionista e doutora em Nutrição em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora e pós-doutoranda do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde desta universidade e consultora do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

5. Elisabetta Recine é nutricionista, doutora em Saúde Pública, docente da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional, do Núcleo Nacional da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável e da Comissão Organizadora da Conferência Popular de Soberania e SAN.


Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s