Matheus Zanella*
Em março deste ano, quando a pandemia de Covid-19 começava a se espalhar para fora da Ásia, muitos se debruçaram para tentar entender como chegamos a esta crise global. Diversos especialistas já apontavam para a existência de interações entre a Covid-19 e nosso modo de produzir e consumir nossa comida.
A relação mais direta com a circulação do vírus tem a ver com a perda dos habitats naturais e um maior contato entre humanos e patógenos da vida selvagem. Porém, como se sabe, o problema é muito maior. A pressão e destruição de habitats naturais é relevante, entretanto são as profundas contradições dos sistemas alimentares dominantes, já presentes muito antes do coronavírus, que nos levam a uma real crise global nos sistemas alimentares. A pandemia só tornou tudo mais evidente. Caiu a roupa do rei.
Dois textos ajudam a entender estes pontos. O primeiro deles é o artigo “O que o agronegócio e a produção de alimentos têm a ver com a Covid-19?“, escrito pela repórter Cida de Oliveira para o Rede Brasil Atual. O conteúdo chama a atenção tanto para como os modelos de produção do agronegócio espalham risco biológico, como para de que forma a indústria alimentar favorece um tipo de alimentação que facilita o desenvolvimento de doenças crônicas, obesidade, diabetes e outros fatores que aumentam o risco das formas mais graves da Covid-19.
O artigo da Cida é claro e sucinto, mas para aqueles que desejam uma leitura mais profunda sobre o tema, sugiro como segunda leitura o comunicado produzido pelos IPES-Food, um painel global de especialistas sobre sistemas alimentares, que lá em abril produziu uma das melhores sínteses sobre a relação entre a doença Covid-19 e a comida. Infelizmente, não há uma tradução do texto “El Covid-19 y la crisis en los sistemas alimentarios: Síntomas, causas y posibles soluciones” para o português, mas aqui está a versão em espanhol. Em inglês e francês, acesse direto no site: http://www.ipes-food.org/pages/covid19.
Qual o principal recado dos dois textos? Para mim, (i) os sistemas alimentares dominantes já estavam em crise muito antes da Covid-19; (ii) precisamos com urgência de uma verdadeira transformação sistêmica, só uma “reforminha” não vai dar conta; e (iii) existem inúmeros exemplos de “pequenas revoluções”, transformações locais, mudanças reais de paradigma que precisam maior visibilidade, prioridade política e acesso a recursos.
Nós da Ação Coletiva esperamos, nos próximos meses, dar luz a algumas dessas revoluções que nos levarão a uma comida muito mais inclusiva e sustentável: uma comida de verdade.
*Matheus Zanella é consultor da Aliança Global para o Futuro da Alimentação (Global Alliance for the Future of Food) e chef de cozinha. Coordena o projeto Faróis de Esperança (Beacons of Hope) e é fundador do projeto gastronômico Mesa pra Doze. É doutorando em Geografia na Universidade de Berna, na Suíça, mestre em desenvolvimento rural pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em técnicas avançadas de cozinha, pelo Centro Culinário Basco (BCC).