Território e sistemas agroalimentares sustentáveis: seminário lança luzes sobre experiências de abastecimento alimentar no Brasil

2 de setembro de 2020

Alimentação adequada e saudável, para além de ser saborosa e saciar a fome, é aquela integrada ao território. É alimento com identidade, como resposta às características socioespaciais, culturais, ambientais e econômicas dos territórios. Constrói e fortalece o elo entre as pessoas, a terra e seus modos de vida. 

É com o objetivo de destacar a relação entre o alimento, as pessoas que o produzem e os territórios em que essas pessoas habitam que a Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia realiza o seminário “Territórios e sistemas agroalimentares sustentáveis” às 17h desta quinta-feira, 3 de setembro. A transmissão será feita pelo canal da Ação Coletiva no Youtube, onde será possível interagir, fazer perguntas ou sugerir desdobramentos para fortalecer os diálogos.

As potencialidades do alimento enquanto promotor do desenvolvimento territorial serão debatidas sob a condução da docente da Universidade de Brasília (UnB), Mireya Valencia, tendo como convidadas e convidados: a fundadora do Instituto Maniva e ecochef, Teresa Corção; o membro-fundador da CSA Brasil, Ariel Molina; a agricultora e integrante da coordenação do Polo da Borborema, Roselita Vitor; e o docente da Universidade Federal do ABC, Arilson Favareto. A sensibilidade da ambientação cultural será dos músicos do Duo Fuá do Cerrado, Luciana Lins e Léo Brito.

As experiências de produção, distribuição e consumo alimentar em escala territorial que estão sendo mapeadas em todo o território nacional pela Ação Coletiva Comida de Verdade, servirão de inspiração para nortear os diálogos. São iniciativas protagonizadas por pessoas, redes e coletivos que garantem a circulação e o acesso à comida de verdade – adequada, saudável e produzida por quem sabe o valor da terra e do alimento. Também serão destacados os desafios encontrados na condução das experiências e as potencialidades que se apresentam nos territórios, bem como as dimensões que as caracterizam, entre outras, relacionadas à identidade, à questão ambiental e à economia.

Adequação socioecológica

Presença confirmada no seminário, a ecochef e fundadora do Instituto Maniva, Teresa Corção, destaca o papel transformador que o alimento pode ter a partir da sua contextualização geográfica e histórica. “As primeiras ações do Instituto Maniva, em 2001, foram oficinas de tapioca nas escolas públicas do Rio de Janeiro. Nós mostrávamos às crianças a arte que os descendentes dos indígenas e nordestinos tinham com o manuseio da mandioca, um alimento importante para os nossos antepassados. Depois, mais de três mil crianças passaram por essa oficina, em vários estados do Brasil. Então percebemos o potencial da identidade gastronômica. Cada comida tem o seu pertencimento histórico e cultural e é essa compreensão que devemos ter a partir dos diferentes papéis que ocupamos em toda a cadeia”, explica Teresa Corção.  

A comida de verdade tem origem e identidade. Traz no seu percurso uma ligação com a história sociocultural de um território e de um povo. Reflete os modos de vida das pessoas e a biodiversidade local. De acordo com o docente da Universidade Federal do ABC e pesquisador do Cebrap, Arilson Favareto, a dimensão identitária da comida de verdade diz respeito à adequação socioecológica dos sistemas alimentares localizados.

“De maneira geral, aquilo que é reproduzido num território faz parte dos hábitos alimentares, dos gostos, da cultura, das relações afetivas que as pessoas têm com a comida. Isso quer dizer que a produção de alimentos típicos de uma determinada formação territorial está associada em geral a gêneros característicos daquele ecossistema e a valorização dessa biodiversidade local pode contribuir para a resiliência desses ecossistemas locais, a valorização dessa biodiversidade local”, afirma Arilson Favareto.

As dimensões identitárias e ecológicas que a comida de verdade traz em seu percurso não podem ser dissociadas uma da outra, quando se trata do alimento produzido e consumido em circuitos curtos de comercialização. Além de fortalecer o trabalho da agricultura familiar, comprar o alimento saudável e agroecológico é dar preferência a modos de produção que respeitam a natureza e protegem os recursos naturais.

“Olhar os sistemas agroalimentares sustentáveis desde uma perspectiva territorial permite enxergar a riqueza das relações que se tecem para sua conformação. Relações de troca e complementaridades entre o campo e cidade. Relações mediadas por múltiplas dimensões que vão além do setor agrícola. Falamos aqui de cultura, natureza, arraigo, saberes, geração de renda. Na transformação dos sistemas agroalimentares espera-se que, de igual forma, sejam os atores territoriais que decidam o que produzir, como produzir, distribuir,  processar e consumir, assim como participar na definição das ações públicas que regulamentam esses sistemas”, explica Mireya Valencia.

Economia

É justamente a proximidade geográfica entre o local onde cada alimento é produzido e o espaço em que ele é consumido que garante não só a valorização do alimento saudável, como também favorece a economia e, consequentemente, a acessibilidade à comida de verdade. Ao fortalecer as pequenas cadeias de distribuição local, se amplia a renda dos produtores e das produtoras e assim, se dinamiza a economia local.

“O consumo de alimentos no próprio território contribui para dinamizar as economias locais. Dessa forma, a valorização dos circuitos econômicos locais ocorre quando as formas de produção e consumo são baseadas em produtos locais. Essa é uma excelente maneira de fazer com que parte da renda gerada com essa produção fique retida no próprio território. Por outro lado, à medida que os territórios, os centros urbanos baseiam seus sistemas alimentares na produção local, evita-se grandes deslocamentos no sistemas de distribuição de alimentos”, explica Favareto.

Para Mireya Valencia, os circuitos curtos de comercialização são sistemas agroalimentares em uma escala espacial determinada que dão novos significados ao alimento, bem como valorizam formas diferentes de comercializar e consumir. “Mediante esse tipo de comercialização, se aproxima o campo à cidade pela troca, não só de produtos diversos, mas pelo significado que tanto produtores como consumidores lhe outorgam ao alimento em termos culturais, ecológicos e políticos”, destaca Mireya.

Caminhos 

A realização de seminários, de pesquisas e o mapeamento das experiências de abastecimento alimentar propostos pela Ação Coletiva, além de levantar reflexões e debates a respeito da comida de verdade, tem como intuito apontar caminhos para a efetiva transição dos sistemas agroalimentares. Para Arilson Favareto, as ações de inventariar e diagnosticar devem ser destacadas como aspectos inerentes ao caráter do mapeamento das iniciativas.

“Esse é um tema que ainda tem pouca visibilidade. Ao mesmo tempo que é caro para uma determinada comunidade de organizações, de pesquisadores, está ainda um pouco distante da população de uma forma geral. Aí está a importância de inventariar essas experiências, de levar à sociedade brasileira a dimensão das iniciativas, quantas são, o que mobilizam, onde se localizam. Uma segunda questão importante é o ato de diagnosticar o estado dessas experiências. Compreender de que maneira é possível dar mais vigor, ampliar o espaço das experiências, identificar regiões, aspectos e vazios que não estejam sendo trabalhados”, explica Favareto.

De acordo com Teresa Corção, os seminários são instrumentos de comunicação entre essas experiências, capazes de promover sinergia e contribuir para que elas se tornem metodologias inspiradoras, que possam ser replicadas a partir dos diferentes territórios. Mas essa é uma questão sistêmica e precisa envolver todos os elos da cadeia. “Não só agricultor, mas também o consumidor, os profissionais da gastronomia. Para sairmos da bolha, precisa haver propostas para integrar os elos da cadeia. Os exemplos para a transformação têm que partir de todos esses elos, intercambiando saberes. Acredito que esse é o caminho para promover uma mudança sistêmica, que ocorra no campo e na cidade, nas políticas públicas e no mercado”, finaliza Teresa.

Serviço

Seminário “Territórios e sistemas agroalimentares sustentáveis”

Data: 3 de setembro, quinta-feira, às 17h (horário de Brasília)

Canal do youtube Ação Coletiva Comida de Verdade: https://cutt.ly/QfgIP0a. Para receber o lembrete sobre a transmissão, basta ativar o sininho.

Foto de capa: Rodrigo Flores
Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade

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