Comida de Verdade: experiências mapeadas em todo o Brasil confirmam a viabilidade e a ampliação dos sistemas agroalimentares

Comida de verdade é alimento com memória, cultura e afeto. Alimento que em sua trajetória produz vida, saúde, igualdade e justiça. Um poderoso prisma que revela as identidades e os modos de vida de um povo e caminhos concretos de transformação. O mapeamento da “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia”, finalizado no último dia 31 de outubro, coletou experiências de abastecimento alimentar nos diversos cantos do Brasil. São ações coletivas que revelam a potência de conexão do alimento quando movido por redes de solidariedade e fortes anseios de transformação social. 

Ao todo, foram cadastradas 310 iniciativas locais de produção saudável e sustentável na plataforma do Agroecologia em Rede (AeR). Ações protagonizadas por organizações populares, coletivos, redes e movimentos sociais, do campo e da cidade, que mesmo durante a pandemia tem garantido que a comida de verdade chegue à população em todos os estados do país e no Distrito Federal. O número de experiências cadastradas exemplificam a dimensão das mobilizações e da capacidade de articulação nos territórios. Dados coletados pelo mapeamento são importantes para conduzir olhares analíticos e estudos, produzindo e ampliando o conhecimento acerca de temas como Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, Agroecologia, o Desenvolvimento Regional, entre outros.

Inspirações e aprendizados  

No entanto, mais do que números, as experiências falam sobre diferentes expressões de nossa gente, sobre a paixão com que realizam o ofício de cuidar da terra e produzir alimentos saudáveis e a força com que defendem seus territórios de vida. Elas falam sobre redes de solidariedade, inclusive entre pessoas que sequer se conheciam, mas que se mobilizaram para minimizar os impactos da fome e da insegurança alimentar para as pessoas em situação de vulnerabilidade. E trazem os fluxos baseados na produção local e nos circuitos curtos de abastecimento, que estabelecem relações mais justas entre os produtores e as pessoas para garantir o acesso à comida de verdade. 

“O que a Ação Coletiva Comida de Verdade nos propõe é um exercício de produção coletiva de conhecimento a partir das respostas locais aos efeitos da pandemia sobre o abastecimento alimentar.”

Paulo Petersen

A docente da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, Elisabetta Recine, que compõe o Comitê Gestor da Ação Coletiva, explica que a motivação inicial da iniciativa, de documentar as experiências que se multiplicaram no Brasil no contexto da pandemia, não só foi suprida, como também superada pela riqueza de informações que elas ajudaram a revelar. 

“Um ponto interessante dessas iniciativas, que inicialmente prevíamos identificar, é que elas têm o caráter de redes que já existiam, mas que ganharam muita força e visibilidade nesse momento de crise. O papel que elas tiveram na pandemia deixou ainda mais óbvia a sua importância, não só em um momento como esse, mas no cotidiano. Seja ampliando o alcance das redes de produção e comercialização ou garantindo o acesso das pessoas à comida de verdade para aquelas que tiveram suas condições de vida agravadas pela pandemia”, explicou Elisabetta.  

Impressionam pela heterogeneidade de vertentes e de protagonismos: são jovens que desenvolveram estratégias de comunicação digital, povos indígenas e quilombolas que potencializaram a agroecologia para a defesa dos territórios, mulheres organizadas em redes de comercialização, movimentos sociais conduzindo campanhas de doação de alimentos para populações em situação de vulnerabilidade, agricultoras/es organizadas/os em feiras agroecológicas e sistemas de entrega domiciliar, estudantes e trabalhadoras/es ampliando as hortas nas periferias urbanas. 

Mas, apesar da diversidade há convergências nos sentidos, nas práticas e nos sentimentos de solidariedade e de irmandade. Mostram a capacidade que a sociedade civil organizada tem de responder, de maneira ágil, às necessidades das comunidades e pessoas e apontar caminhos para além da crise. 

De acordo com o coordenador executivo da Ação Coletiva Comida de Verdade, Paulo Petersen, mais do que informações, o mapeamento das experiências aponta inspirações e aprendizados. “O que a Ação Coletiva Comida de Verdade nos propõe é um exercício de produção coletiva de conhecimento a partir das respostas locais aos efeitos da pandemia sobre o abastecimento alimentar. A partir do mapeamento das iniciativas localizadas em todo o território nacional, o que se cria é um ambiente de aprendizagem e mobilização com as próprias pessoas envolvidas nessas experiências”, afirma Paulo, que também é coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. 

Articulação e Comunicação

Com o objetivo de garantir representatividade territorial e auxiliar as/os protagonistas das experiências em todo o Brasil, a Ação Coletiva Comida de Verdade compôs uma equipe de articulação composta por um(a) articulador(a) em cada região do Brasil. A missão foi desafiadora: apoiar o cadastro das experiências, em um contexto de pandemia que impossibilitou encontros presenciais, visitas a campo e melhores oportunidades de diálogo, fatores importantes para estabelecer relações de confiança com tantas pessoas em diferentes estados do Brasil. 

Para dar visibilidade às experiências e às histórias de vida que movem as iniciativas de solidariedade, a equipe de comunicação assumiu outra missão desafiadora: contar as histórias das pessoas que protagonizam as experiências através de palavras e imagens que jamais seriam capazes de traduzir as riquezas, as belezas e as forças coletivas que moram nas casas, nas comunidades e nas vidas de tanta gente.  

São profissionais movidas/os pelas demandas do trabalho mas, ao mesmo tempo, sensibilizadas/os pelos desafios e limitações que a pandemia impôs às pessoas de diferentes localidades e trajetórias. Uma nobre e desafiadora missão de percorrer o país, mas sem pisar nos territórios, sem sentir a terra e as águas que movem a reprodução da vida, sem sentir o cheiro e o sabor dos alimentos produzidos, sem olhar nos olhos das pessoas e trocar abraços, sementes e comidas.

“Nós nos comprometemos com a produção de conhecimento, mas um conhecimento localizado, que tem origem no saber e no fazer popular”

Paulo Petersen

De acordo com Paulo Petersen, todo o trabalho em torno dos objetivos relacionados ao mapeamento seguiu diretrizes coerentes com os princípios e valores da agroecologia, como a ecologia de saberes e a escuta atenta às vozes e à produção de conhecimento dos territórios e o estabelecimento de relações baseadas em trocas e respeito. “Um ponto-chave da Ação Coletiva foi e é a combinação entre o trabalho de articulação em todas as regiões brasileiras e a comunicação no sentido de dar visibilidade às experiências identificadas. É uma aposta metodológica que garante, ao mesmo tempo, o levantamento das informações sobre as iniciativas, os atores sociais e as estratégias locais, promove visibilidade às histórias e às vozes que os territórios têm para contar e trocar entre si. Nós nos comprometemos com a produção de conhecimento, mas um conhecimento localizado, que tem origem no saber e no fazer popular”, explica Paulo.

Paulo Petersen e Elisabetta Recine compõem a equipe do Comitê Gestor da Ação Coletiva que, junto com outras/os representantes das organizações que compõem o projeto, conduziram coletivamente os rumos, os diálogos e os olhares a respeito dos processos e dos resultados paulatinamente identificados.  

Incidência local

Com o encerramento do mapeamento conduzido pela Ação Coletiva Comida de Verdade, a equipe de coordenação, formada por pesquisadores/ras, professoras/res, consultores/ras e especialistas, nos segmentos da agricultura familiar, nutrição e alimentação, agroecologia, segurança alimentar e nutricional, desenvolvimento rural e territorial, se prepara para se debruçar sobre as informações coletadas: o que as experiências apontam no tocante às possibilidades de um outro modelo, quem são os sujeitos que as conduzem, quais as potencialidades e os desafios de cada uma, que estratégias são adotadas pelos diferentes sujeitos que compõem o abastecimento alimentar e como essas iniciativas podem fornecer subsídios para orientar políticas públicas e estudos voltados à reflexão sobre os processos de transição, adaptação, fortalecimento e resiliência dos sistemas agroalimentares.

“Talvez as consequências da pandemia fossem ainda piores do que estão sendo se as articulações locais não tivessem ocorrido, e elas foram possíveis porque existe um movimento muito real e importante no nível local, envolvendo agricultores rurais e urbanos, consumidores, redes de apoio social, entre outros”

Elisabetta Recine

Para Elisabetta Recine, o processo eleitoral municipal de 2020, tem contribuído para fortalecer as discussões relacionadas à  soberania e segurança alimentar e nutricional, bem como para aprofundar a incidência da agenda junto às/aos agentes públicas/os. “Talvez as consequências da pandemia fossem ainda piores do que estão sendo se as articulações locais não tivessem ocorrido, e elas foram possíveis porque existe um movimento muito real e importante no nível local, envolvendo agricultores rurais e urbanos, consumidores, redes de apoio social, entre outros. As iniciativas mapeadas contribuíram para dar visibilidade ao papel que estes processos locais desempenham frente ao que  vivemos atualmente. Elas ilustram o quanto essa agenda precisa ser valorizada, tanto por parte de legisladores quanto do executivo municipal e temos nas mãos uma oportunidade única para fortalecê-la nestas eleições”, destaca a docente da UnB. 

No entanto, ela ressalta que as mobilizações precisam continuar se fortalecendo, mesmo após o pleito eleitoral. “As articulações não terminam nas eleições. Mobilizações como a da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), da  Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Comissão Organizadora da Conferência Popular por Soberania e Segurança Alimentar e NutricionalAção da Cidadania e inúmeras outras estão levando a agenda da Agroecologia, Direito Humano à Alimentação, Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional a candidatas e candidatos mas,  independente de quem for eleita/o, o processo de incidência na atuação das novas e novos parlamentares e prefeitas/os será mantido para que as políticas públicas sejam efetivadas”, destaca Elisabetta. 

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Giorgia Prates

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