26 de agosto de 2020
Os impactos causados pela pandemia da Covid-19 nas diversas dimensões da vida humana, principalmente na saúde, educação e economia, são ainda imensuráveis. Transversal a todas essas dimensões, o alimento figura como conector central. Para além da necessidade física de saciedade, a comida representa o primeiro e principal elo entre o ser humano e o território que habita. Um forte conector de questões sociais, políticas, econômicas e identitárias.
“(…) a comida representa o primeiro e principal elo entre o ser humano e o território que habita.”
É esse horizonte de conexão entre o alimento e o território que inspira as diversas experiências de produção, distribuição e consumo alimentar em escala territorial. São iniciativas protagonizadas por pessoas, redes e coletivos que garantem a circulação e o acesso à comida de verdade – adequada, saudável e produzida por quem sabe o valor da terra e do alimento.
A Rede de Agroecologia Povos da Mata é uma dessas redes. Fruto de uma articulação entre produtores da agricultura familiar, agricultores assentados da reforma agrária, comunidades indígenas e quilombolas, agricultores em geral e consumidores-coprodutores, a Rede Povos da Mata é formada por uma média de 700 famílias agricultoras distribuídas em 70 grupos, no estado da Bahia, que produzem alimentos agroecológicos certificados em 220 unidades produtivas cadastradas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Criada há cinco anos – e credenciada há quatro -, a Rede Povos da Mata garante, além da produção, o beneficiamento e a circulação de comida de verdade por meio de 12 rotas de circuito curto de comercialização de produtos agroecológicos, que leva em conta a proximidade geográfica entre o local onde cada alimento é produzido e onde ele é consumido, além da proximidade social entre o produtor e o consumidor, reduzindo assim o número de intermediários na relação entre a produção e o consumo. A distribuição é facilitada pela presença de Estações Orgânicas, espaços que garantem o fornecimento dos alimentos e integram consumidoras/es à condição de co-produtoras/es através de um consumo consciente e participativo.
Núcleos Territoriais
“Os produtos circulam nas cidades de Irecê, Salvador, Porto Seguro e em todo o litoral Sul da Bahia. Conseguimos também garantir uma circulação interestadual a partir de uma Estação Orgânica em São Paulo, em uma parceria com a Rede Ecovida. De lá, circulam pela região Sul do país. O que atrai as pessoas ao consumo dos alimentos produzidos pelas famílias que compõem a Rede Povos da Mata é não só o fato de o alimento ser orgânico, mas também a diversidade de alimentos que é oferecida”, afirma Tatiane Botelho, coordenadora do eixo de produção e beneficiamento dos circuitos agroecológicos da Rede de Agroecologia Povos da Mata.
São mais de 80 itens que circulam nas cestas agroecológicas da Rede Povos da Mata: hortaliças de modo geral, raízes como batata doce e aipim, verduras, frutas e leguminosas, além de derivados de origem animal (leite e queijo de cabra, por exemplo) e produtos beneficiados nas agroindústrias, como chocolate, granola, geleias, extratos de tomate e temperos.
A Rede Povos da Mata é composta por quatro núcleos distribuídos em 13 territórios: o Núcleo Raízes do Sertão, na região da caatinga; os Núcleos Pratigi (baixo sul), Serra Grande (litoral sul) e o Núcleo Monte Pascoal, localizado na região de Porto Seguro (BA). Todos os núcleos foram impactados pela pandemia da Covid-19 nos aspectos da certificação, produção, beneficiamento, comercialização e consumo. Segundo Tatiane, no entanto, as estratégias de comunicação tornaram-se grande aliadas na superação dos desafios.
“Nossa principal aliada para continuar fortalecendo os processos diante da pandemia é a tecnologia.”
“Nossa principal aliada para continuar fortalecendo os processos diante da pandemia é a tecnologia. Por orientação do MAPA, as visitas presenciais de certificação foram suspensas, bem como as visitas dos técnicos aos núcleos de circuito agroecológico. Até tivemos um aumento na demanda pela comercialização dos produtos, mas os produtores mais acostumados aos espaços das feiras livres tiveram dificuldades inicialmente para se adaptar às novas regras. Intensificamos os acompanhamentos e as capacitações através de aplicativos de vídeos e bate-papos. Para garantir a comercialização, os agricultores passaram a utilizar mais o Whatsapp como ferramenta de comunicação. Eles enviam a lista de produtos disponíveis e o consumidor vai buscar nas Estações Orgânicas ou outros espaços de retirada”, afirma Tatiane.
Símbolo da vida
A comunicação também tem sido forte aliada na garantia de escoamento dos produtos beneficiados a partir da mangaba, fruta-símbolo do estado de Sergipe e principal recurso utilizado pelas catadoras de mangaba para produzir geleias, compotas, licores, bolos, tortas, biscoitos, trufas e balas, entre outras delícias regionais. Com a pandemia, as quatro unidades de beneficiamento distribuídas pelo estado – Estância e Indiaroba (região Centro-Sul), Barra dos Coqueiros (região metropolitana) e outra em Japaratuba (Leste sergipano) – foram fechadas.
Contratos relacionados ao fornecimento de alimentos para a merenda escolar, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) foram cancelados a partir da suspensão das aulas presenciais. O encerramento de eventos e ações turísticas, principais oportunidades de comercialização para as catadoras de mangaba, também impactou diretamente a renda dessas mulheres.

“A auto-organização é o que tem nos salvado diante de tantos desafios”
O site e-commerce das Catadoras de Mangaba, desenvolvido em parceria com o Instituto Pangea – Meio Ambiente, Cultura e Educação (IPan) através do Projeto Casa da Mangaba, e o apoio do Instituto Afrânio Affonso Ferreira (IAAF), tem garantido a venda dos produtos não só para o estado de Sergipe, como também para outros estados. “A auto-organização é o que tem nos salvado diante de tantos desafios. Como as unidades são distribuídas em vários locais do estado, criamos coletivamente um esquema de rodízio. A cada semana, os pedidos realizados pelo site são atribuídos a uma unidade. As mulheres daquela unidade já sabem que deverão se preparar para fornecer, recebem o pedido e encaminham. Os produtos são encaminhados para entregas em domicílio (delivery) ou podem ser coletados em uma Central de Distribuição instalada na Sede do IPan, em Aracaju, através do serviço drive-in”, explica Patrícia Santos de Jesus, presidente da Associação das Catadoras e Catadores de Mangaba da Barra dos Coqueiros.
Patrícia também integra o Movimento das Catadoras de Mangaba de Sergipe (MCM/SE), formado por cerca de 2.500 mulheres extrativistas, pescadoras, marisqueiras, culinaristas, artesãs, compositoras e poetisas. “A mangabeira para nós não é só a mulher que coleta a mangaba. É também a mulher que cria as receitas, que faz os doces, a que compõe as músicas que cantamos nos momentos da coleta, as que criam peças lindas a partir dos recursos da restinga. Todas essas atividades fazem parte do ofício de ser catadora de mangaba, porque ela é o nosso símbolo de vida”, explica Alícia Morais, coordenadora geral do Movimento das Catadoras de Mangaba e residente do município de Indiaroba/SE.
Identidade e território
De acordo com Renato Maluf, professor titular do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde coordena o Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (CERESAN), o elemento identitário e territorial é fundamental quando se fala em comida de verdade. Para ele, a alimentação adequada e saudável precisa levar em consideração a associação entre o alimento, o território e a identidade, as circunstâncias socioespaciais, culturais, ambientais e territoriais.

“A relação entre o alimento, as pessoas que o manuseiam e os territórios em que essas pessoas habitam é o ponto central para a reterritorialização dos sistemas agroalimentares. São iniciativas como essas que dinamizam relações sociais de âmbito territorial. Constroem elos entre as pessoas e os grupos sociais, e desta maneira participam da construção de um tecido social que é, ao mesmo tempo, a construção social dos territórios. Esta é uma das principais maneiras em que as famílias, em particular as famílias rurais, atuam como gestoras do território, inclusive do ponto de vista de promoção do desenvolvimento territorial. Essas atividades relacionadas com o alimento tem um potencial dinamizador das economias locais”, afirma Renato, que também é membro da Coordenação do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN) e coordenador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PenSSAN).
“A relação entre o alimento, as pessoas que o manuseiam e os territórios em que essas pessoas habitam é o ponto central para a reterritorialização dos sistemas agroalimentares”
Assim como as/os protagonistas das experiências, Renato ainda destaca a comunicação como fator fundamental para o fortalecimento das ações em rede. “Um dos horizontes principais da Ação Coletiva Comida de Verdade reside justamente no seu potencial de dar visibilidade às iniciativas de abastecimento alimentar que, embora existam há muito tempo nos diversos territórios, estão invisibilizadas diante do poder de propaganda da indústria alimentar e dos meios de comunicação. Dar visibilidade a essas experiências é ao mesmo tempo valorizar todos os seus significados e favorecer o recebimento de apoio necessário”, explica Renato.
Pós-pandemia
Situações de vulnerabilidade e insegurança alimentar foram intensificadas pela pandemia em diversas regiões do país, o que tem desafiado as redes de abastecimento a intensificarem, por sua vez, as possibilidades de acesso das pessoas à comida de verdade. No entanto, para Renato Maluf, um dos grandes desafios está em encontrar formas de, além de atender às demandas urgentes por alimentação, fortalecer os caminhos que representem possibilidades futuras. Essa perspectiva está contida justamente nessas iniciativas, ao mesmo tempo que promovem acesso à alimentação para quem precisa.
“A reterritorialização dos sistemas agroalimentares significa dar identidade à comida.”
“Existe uma diferença entre a comida de algum lugar e a comida de lugar nenhum. A comida de algum lugar tem identidade, você sabe de onde vem, tem origem e identidade no recurso natural utilizado, na maneira de preparar, de cultivar. A reterritorialização dos sistemas agroalimentares significa dar identidade à comida. A comida de lugar nenhum é aquela que chega através dos circuitos longos sobre a qual não se sabe a procedência, não tem identidade cultural, territorial ou étnica, e não expressa a relação com a natureza. A identidade da comida de algum lugar reflete o que as pessoas vivem, a disponibilidade de recursos, a biodiversidade, a cultura local”, explica Renato ao destacar a importância das experiências de abastecimento alimentar com comida de verdade para a reconfiguração dos sistemas agroalimentares reterritorializados.
Debate ampliado
Na próxima semana, quinta-feira (3), a Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia realiza o seminário “Territórios e sistemas agroalimentares sustentáveis”, com o objetivo de ampliar a discussão pública em torno do assunto. Será às 17h, com transmissão ao vivo pela .
Os interessados poderão participar, via chat, com comentários e perguntas aos convidados: Teresa Corção, ecochef, fundadora do Instituto Maniva; Ariel Molina, membro-fundador da CSA Brasil; Roselita Vitor, integrante da coordenação do Polo da Borborema e Arilson Favareto, docente da Universidade Federal do ABC.
A mediação será de Mireya Valencia, docente de Universidade de Brasília (UnB); e o momento cultural terá os discentes da Faculdade de Música da UnB, Luciana Lins e Léo Brito, artistas criadores do Duo Fuá do Cerrado.
Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: André Souza