Lançamento foi celebrado em seminário com diálogo entre saberes do campo e da cidade que atuam na busca pela soberania alimentar
5 de agosto de 2020
É urgente a humanidade retomar não somente o afeto da produção e do preparo dos alimentos, mas sobretudo a aproximação com a semente e a terra”. As poderosas palavras da professora e ativista indígena do povo Xakriabá, Célia Xakriabá, aliadas à ambientação cultural do músico afro-recifense Negro Grilo, foram as sementes fecundas que inspiraram o lançamento nacional da “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” na tarde da última sexta, 31 de julho.
Transmitido pelo facebook da Ação Coletiva, o seminário “Covid-19 e sistemas agroalimentares no Brasil: quais as saídas para um futuro melhor?” reuniu, além de representação dos povos indígenas e negros, agentes da agricultura familiar camponesa, da pesquisa e do jornalismo contra-hegemônico e provocou uma intensa troca entre as centenas de pessoas, de todo o país, que acompanharam e participaram ativamente da transmissão.
A diversidade de representações celebrou a abertura da Ação Coletiva por meio de diálogo sobre os impactos da pandemia pelo coronavírus nas condições de produção e acesso aos alimentos adequados e saudáveis, além dos desafios e possíveis alternativas para a reterritorialização das dinâmicas de abastecimento alimentar. Sob a apresentação de Potira Preiss, pesquisadora pós-doc no Programa de Pós-Graduação e Desenvolvimento Regional da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e de Matheus Zanella, consultor da Aliança Global para o Futuro da Alimentação; contando com as perguntas orientadoras do jornalista e fundador do portal “O Joio e o Trigo”, João Peres, o bate-papo foi protagonizado pela dirigente do Movimento dos Pequenos Agricultores do Piauí (MPA/PI), Maria Kazé, o coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Paulo Petersen, e a docente da Universidade de Brasília (UnB), Elisabetta Recine.
O alimento enquanto elemento central para a vida, a saúde coletiva, o meio ambiente, a cultura e outras conexões da dimensão social. O percurso, da semente ao prato servido à mesa. As narrativas, os modos de vida e as condições de trabalho daquelas e daqueles que cuidam da semeadura, da produção, da comercialização e do abastecimento alimentar. As ações coletivas de solidariedade que entrelaçam as diferentes história de vida Brasil afora. Esses e outros assuntos foram enredados no seminário de lançamento da Ação que tem como intuito mapear, identificar, dar visibilidade e fomentar reflexões sobre as numerosas e heterogêneas experiências que tem mantido ativo o fluxo de comida de verdade entre o campo e a cidade.
Força social
“Se, por um lado, as políticas públicas brasileiras em geral, e principalmente as sociais, estão sendo desmanteladas a todo momento, é nesse momento que percebemos o quanto elas são imprescindíveis. E por outro lado, o lançamento da Ação Coletiva nos mostra que a sociedade brasileira está penalizada, mas os movimentos sociais, as organizações, não estão paradas à mercê do desmonte do Estado. Estão organizadas, agindo em várias camadas dessa realidade com ações não só de doação, mas de comercialização, de apoio à produção”, destacou Elisabetta Recine ao falar sobre a importância do mapeamento das experiências que têm fortalecido os laços de solidariedade pelo Brasil.
No diálogo, Paulo Petersen abordou as ações coletivas de solidariedade como elemento-chave para os caminhos da transformação. “Momentos de crise como esse são momentos de reposicionamento das forças sociais. Para o bem ou para o mal. E o capitalismo sempre soube se reposicionar muito bem e colocar o seu projeto à frente nesses momentos de crise. O sentido de ir buscar nas práticas sociais de ação coletiva, é mapear e fortalecer as redes de vida que se expressam em todos os territórios, em todos os cantos. Não são somente experiências de solidariedade que se restringem aos territórios, isso é força social para a transformação do sistema institucional”, afirmou Petersen.
Caminhos e narrativas
Para a camponesa Maria Kazé, os caminhos para a segurança e soberania alimentar não se traçam se não a partir da reconexão com as nossas raízes. “Em todas as crises, não só nessa crise sanitária que estamos vivendo a partir do coronavírus, as pessoas são chamadas a se reconectar, a retornar, a regressar. E as comunidades e povos originários, tradicionais na sua diversidade, geralmente é quem tem trazido, dividido, socializado esses ensinamentos do quão é urgente e necessário permanentemente estarmos retornando à nossa ancestralidade. Muitos ainda não sentiram isso, o preço que pagamos não é só o preço da vida física. Ela não é separada da árvore que tomba, do rio que seca, não é desconectada do peixe que morre”, afirmou.
Para além da identificação e mapeamento, a Ação Coletiva também tem como intuito dar visibilidade às experiências para que se potencializem enquanto força política, principalmente na sua capacidade de proposição política. “O maior estoque horizontal de alimentos que existe no país está na mão dos camponeses, das comunidades tradicionais, extrativistas, ribeirinhas, indígenas, quilombolas, e é completamente ignorado”, afirmou Maria Kazé.
Nos laços estratégicos para a construção de narrativas que contemplem as riquezas e os saberes dos povos e comunidades tradicionais, o portal “O Joio e o Trigo” representa um importante canal de comunicação que traz o alimento de verdade, a luta pelo território e a defesa da vida como pautas principais. Nesse sentido, o jornalista e fundador, João Peres, destacou a importância do olhar e da escuta sensível para estimular os debates necessários.
“A gente está confinado há quatro meses por culpa do confinamento industrial de animais. Vivemos em uma sociedade em que a compreensão sobre as estruturas é muito difícil e não é culpa das pessoas que não entendem sobre as conexões entre o desmatamento, os matadouros e frigoríficos e a disseminação de epidemias. Tudo é estruturado para que sejam incompreensíveis mesmo. Por isso é difícil fazer essas conexões entre os pontos, mas aos poucos vamos furando a bolha”, afirmou o jornalista.
Mapeamento e sistematização
A Ação Coletiva Comida de Verdade reúne uma ampla e potente equipe de pesquisa, sistematização, articulação e comunicação, que atuará em todo o país no sentido de dar visibilidade às experiências em curso e fomentar reflexões sobre as transformações que impulsionam os sistemas agroalimentares. Cada região do Brasil contará com o apoio de um/a articulador/a para impulsionar os diálogos e a identificação das experiências de abastecimento alimentar.
As experiências mapeadas serão cadastradas na plataforma Agroecologia em Rede (AeR), um sistema integrado de informações sobre iniciativas de agroecologia e que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica. Desde 2018 o AeR passa por um intenso processo de atualização e reestruturação, com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e gestão da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) e da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia).
Organizações
A “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” é composta pela ActionAid Brasil, Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), Associação Brasileira de Agroecologia (ABA-Agroecologia), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Centro de Referência em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan/UFRRJ), Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FBSSAN), Grupo de Estudos em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (Gepad), Instituto Ibirapitanga, Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (Opsan/UnB), Observatório de Desenvolvimento Regional (Observa DR), Rede Brasileira de Pesquisa e Gestão em Desenvolvimento Territorial (Rete), Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PenSSAN).
Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade