16/09/2020
O dia começa cedo para Viviane Kurtz, no município de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul (RS). Planejar a semeadura, adubar a terra, cuidar da colheita, preparar cestas para entrega dos alimentos e calcular os custos requer trabalho e disciplina para a adolescente de 16 anos. Mas, para Viviane, cada dia de trabalho e estudo é uma oportunidade nova de criar, de aprender com a sabedoria da terra e garantir que a comida de verdade, plantada por ela, possa chegar à casa das pessoas.
Viviane realiza com alegria e orgulho o seu plantio em uma área experimental criada no terreno de casa, como parte das atividades pedagógicas estimuladas pela Escola de Famílias Agrícolas de Santa Cruz do Sul (EFASC), onde ela estuda. Criada em 2008, a EFASC é mantida pela Associação Gaúcha Pró-Escolas Famílias Agrícolas (AGEFA) através de uma articulação com 22 entidades. Acolhe estudantes oriundos de 150 comunidades, distribuídas em 11 municípios.
Com a pandemia da Covid-19, a Pedagogia da Alternância, a partir da qual os/as estudantes passam uma semana na escola e uma semana em casa, teve que ser substituída pelo ensino remoto. O cultivo das áreas experimentais é uma forma de manter ativos os aprendizados e as trocas. “No começo foi difícil passar uma semana longe de casa, da minha família. Mas com o passar do tempo fui me acostumando, por conta da convivência, das amizades que acabei fazendo. Participo de muitos coletivos e, além de estudar, posso trabalhar na cozinha, na área experimental. Não estamos indo para as aulas da escola, mas continuamos aprendendo”, afirma Viviane.
Produção e comercialização pedagógicas
Boa parte do alimento plantado por Viviane em sua área experimental é comercializado através do “Grupo de Produção e Comercialização de Alimentos”, iniciativa conduzida pela EFASC para garantir que a comida plantada pelos estudantes possa circular entre as casas do Vale do Rio Pardo. A ação integra o projeto “Extensionismo Agroecológico”, uma parceria da EFASC com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS). Dois bolsistas e estudantes do Curso de Bacharelado em Agroecologia da UERGS, Bruna Eichler e Matheus Costa, e que são egressos da EFASC, assessoram o grupo. Somente na primeira entrega, realizada há menos de uma semana, foram comercializados 350 kg de alimentos agroecológicos. Todos plantados por estudantes da EFASC em suas áreas experimentais.
“Antes da pandemia, nós realizávamos na escola a Feira Pedagógica. Às segundas-feiras, os estudantes chegavam e, junto com as bagagens para passar a semana, traziam produtos de sua área experimental para comercializar. Assim, eles aprenderam a apresentar os alimentos, a distribuir na banca, comercializar e contabilizar as vendas. Com a pandemia, tivemos que parar com as aulas presenciais. Como os estudantes já estavam produzindo em suas áreas experimentais, encontramos no Grupo de Produção e Comercialização uma oportunidade de escoar a produção, ao mesmo tempo em que fortalecemos essas relações entre quem produz o alimento e quem precisa comer. Além disso, uma parte desses alimentos é doada a famílias em situação de vulnerabilidade, a pedido da Diocese local”, explica o assistente social e coordenador de convivência da EFASC, Antônio Carlos Gomes.
Tradição e identidade
Entre os alimentos que compõem as cestas está o pão de dona Elaine Kurtz, mãe de Viviane. Mas, esse não é qualquer pão. É a receita de pão que Elaine aprendeu com sua mãe, que herdou da sua avó, de origem alemã. Receita que traz em si não só uma história de família, mas também parte da memória da imigração germânica ao Brasil.
“Esse pão é uma das nossas receitas de família, mas eu fazia somente para nós. Um dia Vivi estava preparando os alimentos e disse: mãe, vamos fazer o pão para compor as cestas também. Tomei um susto, não sabia como seria. Mas saímos, compramos as fôrmas e adaptei a receita para vários pães menores. Acho que deu certo, porque desde então muita gente quer comprar o pão. Depois disso, Viviane deu ideia de a gente fazer uma manteiga e agora um biscoito. Lembro que antes a gente tinha uma horta bem pequena, para o nosso consumo. Hoje temos uma horta grande, com alimentos sendo espalhados por vários lugares, conseguimos vender tudo e a nossa alimentação está bem mais saudável. E tudo desde que a Vivi começou a estudar na EFASC”, afirma Elaine.
“Hoje temos uma horta grande, com alimentos sendo espalhados por vários lugares, conseguimos vender tudo e a nossa alimentação está bem mais saudável. E tudo desde que a Vivi começou a estudar na EFASC.”
Elaine Kurtz

Os aprendizados de Viviane a partir de um projeto educacional que reconhece e valoriza a realidade e a identidade dos povos e dos territórios atingiram um alcance maior do que o esperado. As atividades pedagógicas e de comercialização envolvem não só a família de Viviane, mas também o restante da comunidade. “Minha mãe plantava o mínimo dos mínimos, um repolho, um rabanete e o que dava. Hoje, quando chego na casa dela, agora tem couve, repolho, brócolis, rabanete, beterraba. O espaço dela continua mínimo, mas tem o máximo que ela pode ter. E agora os vizinhos dela também estão plantando mais, ampliando as possibilidades. E nossos vizinhos também”, explica Elaine.
Pedagogia da Alternância
“O que as famílias buscam para seus filhos não é só uma segurança pedagógica, ou seja, uma pedagogia de qualidade enquanto ferramenta de formação, mas também a segurança física. Nós ouvimos muitos relatos nesse sentido nas reuniões e diálogos. E elas sentem essa segurança a partir dos vínculos que são firmados com a família e a comunidade pela alternância”, explica a pedagoga e coordenadora pedagógica da EFASC, Cristina Vergutz.

Os vínculos dos quais Cristina fala são garantidos pela Pedagogia da Alternância, metodologia de ensino inspirada nos princípios pedagógicos do mestre Paulo Freire e iniciada no Brasil ao final da década de 1960 que conjuga diferentes experiências na formação profissional. “A Pedagogia da Alternância é uma formação de caráter integral que se dá não só no espaço físico da escola, mas principalmente relacionando teoria e prática no espaço da escola, da família e da comunidade. É um projeto pedagógico que faz com que os estudantes enxerguem a pequena propriedade como um espaço de reprodução da vida, ao passo que relacionam o tempo escola com o tempo comunidade. É a formação de um sujeito também, não só de um profissional e, nessa formação, pais e mães também são mestres e aprendizes”, afirma o coordenador da Escola de Famílias Agrícolas do município de Orizona (EFAORI), em Goiás, Antônio Pereira de Almeida.
“A Pedagogia da Alternância é uma formação de caráter integral que se dá não só no espaço físico da escola, mas principalmente relacionando teoria e prática no espaço da escola, da família e da comunidade.”
Antônio Pereira de Almeida
Fundada em 1999, a EFAORI abrange oito pólos e já capacitou uma média de 250 profissionais com formação técnica em agropecuária. De acordo com Antônio, 40% dos egressos continuam fortalecendo as propriedades e comunidades. A EFAORI provocou mudanças nas comunidades que abrange, não só a partir dos estudantes, mas também a partir dos profissionais que fizeram com que esse sonho se realizasse.

“Hoje contamos com uma comissão formada por 14 pessoas para administrar a escola em coletivo. Mas no começo, foi preciso um trabalho muito forte de mobilização e articulação para conseguirmos recursos e pessoas. Fizemos vários contatos e as comunidades abraçaram a ideia. Mas uma coisa muito legal que aconteceu foi quando saiu concurso para professor do município e decidimos que nossos professores prestariam esse concurso para trabalhar na EFAORI com mais qualidade. Muitos deles foram aprovados e através de um convênio firmado com a prefeitura municipal, garantimos que eles continuassem sendo professores da EFAORI”, relembra o coordenador da EFAORI, emocionado.
Além da Pedagogia da Alternância, os estágios de vivência também garantem que as trocas e intercâmbios fortaleçam o envolvimento das famílias nas atividades experimentais e pedagógicas. Nos estágios de vivência, um estudante ou uma estudante passa uma semana na casa de outra família, vivendo a rotina dessas pessoas. “Quando a Viviane chegou em casa dizendo que uma colega iria passar uma semana aqui e que ela iria para outra casa, entrei em pânico. Pensei ‘meu Deus, como essa pessoa vai se sentir aqui conosco?’. Mas elas se integravam, iam e voltavam da área experimental. Na sexta, quando ela foi embora, nosso coração se partiu, senti como uma filha nossa saindo de casa. E quando a Viviane voltou da outra casa, veio cheia de ideias”, relembrou dona Elaine, a mãe de Viviane. Assim como a Pedagogia da Alternância, os Estágios de Vivência também tiveram que ser cancelados por conta da pandemia da Covid-19.
Rede Solidária
A inspiração para a implantação das EFAs de Santa Cruz do Sul e do Orizona veio a partir dos conhecimentos e das trocas realizadas com a EFA Paulo Freire, localizada no município de Acaiaca, em Minas Gerais. Criada a partir de uma mobilização de base no ano de 1991, a EFA Paulo Freire conta com três turmas em Curso Técnico em Agropecuária integrado ao Ensino Médio, além de Curso de Educação para Jovens e Adultos (EJA).

Com a pandemia, também teve suas atividades interrompidas. No entanto, assim como a EFASC, no RS, os agentes envolvidos com a EFA Paulo Freire encontraram uma forma de continuar dinamizando os aprendizados, ao mesmo tempo em que garantem a circulação de comida de verdade na região da Bacia do Rio do Carmo. Trata-se da “Rede Solidária de Alimentação Saudável”, iniciativa que visa a produção, arrecadação e distribuição de mudas e de alimentos diversificados e nutritivos às famílias em situação de vulnerabilidade. A ação é realizada com apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
“No total, já conseguimos produzir e distribuir mais de 57 mil mudas de verduras e legumes a cerca de 200 famílias. São atendidas as comunidades de Acaiaca, Barra Longa e Mariana, atingidas pela lama da Barragem de Fundão, bem como as famílias e municípios da região atendida pela EFA Paulo Freire. Estamos produzindo uma grande diversidade de alimentos, como alface, almeirão, couve-flor, couve chinesa, couve manteiga, cebola de cabeça, salsinha, rabanete, beterraba, tomate, quiabo, pimentão, jiló, mostarda, agrião, rúcula, tomate, abóbora, morango, moranga. É uma ação que vem contribuindo na motivação das famílias em diversificar, garantir uma produção de alimentos saudáveis, melhorando assim a alimentação, trabalho e renda”, informa o coordenador da EFA Paulo Freire, Gilmar de Souza Oliveira.
Educação e juventude
Para os agentes envolvidos nas Escolas de Famílias Agrícolas, a combinação entre propostas educacionais integrativas e os anseios de descobertas da juventude é a fórmula ideal para o fortalecimento da agricultura familiar. “De que maneira as pessoas e entidades estão investindo para que agricultoras e agricultores familiares se renovem enquanto sujeitos? Ouvimos muito sobre o envelhecimento da população do campo, mas entendemos que a centralidade das mudanças está justamente na educação da juventude”, explica o historiador e coordenador institucional da EFASC/RS, João Paulo Reis Costa.
“De que maneira as pessoas e entidades estão investindo para que agricultoras e agricultores familiares se renovem enquanto sujeitos?”
João Paulo Reis Costa
A docente da Universidade de Brasília (UnB) e integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição, Elisabetta Recine, concorda com o professor João. “As histórias nos mostram a dinamização do processo de ensino-aprendizagem que não se limita somente ao jovem ou à jovem, mas que é compartilhado pela família, pela comunidade, que renova e fortalece a identidade comum. Todos esses laços que se formam a partir da educação fazem com que a juventude esteja inserida em um processo muito intenso de trocas de conhecimento, que permite identificar uma trajetória desafiadora, mas criativa e valorizada, que valha à pena seguir. E tudo isso graças a uma proposta de educação que, além da formação técnica, garante um processo de valorização ou de re-valorização cultural da agricultura familiar”, afirma Elisabetta, que também compõe o Comitê Gestor da Ação Coletiva Comida de Verdade.
Para ela, as articulações locais são um ponto importante para o fortalecimento dos processos de produção e de promoção dos sistemas agroalimentares saudáveis. “Nosso grande desafio é conseguirmos vivenciar, viver e espalhar essa concepção de que o sistema alimentar não é uma linha onde uma etapa é superada pela etapa posterior, articula-se com os determinantes da saúde numa visão ampla e sistêmica do sistema alimentar. É aí que entra a importância das articulações locais, pois em um contexto de enfraquecimento, por exemplo, das ações de assistência técnica à agricultura familiar e redução drástica do orçamento das políticas públicas, uma das estratégias de resistência é a articulação da sociedade civil e a ampliação das parcerias. Quando a comunidade percebe que os resultados não se limitam somente a quem está envolvido diretamente com as EFAs, por exemplo, mas que as repercussões positivas são para todas as famílias, o compromisso tende a se ampliar”, explica Elisabetta.
“A decisão sobre o voto deve contemplar a análise do que candidatas e candidatos falam a respeito da produção, comercialização de alimentos, como eles se comprometem. E precisaremos monitorar estes compromissos após as eleições.”
Elisabetta Recine
Além disso, é fundamental que as organizações intensifiquem a demanda por políticas públicas. “É preciso aprofundar o diálogo tanto com o executivo como com o legislativo municipal. Candidatas e candidatos a vereadores e prefeitos precisam se comprometer com essa agenda e a população precisa conhecer experiências reais e perceber o papel desses agentes políticos com a segurança alimentar e nutricional. A decisão sobre o voto deve contemplar a análise do que candidatas e candidatos falam a respeito da produção, comercialização de alimentos, como eles se comprometem. E precisaremos monitorar estes compromissos após as eleições”, sugere Elisabetta.
Ação Coletiva
O mapeamento de experiências de abastecimento alimentar conduzido pela “Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia” busca não apenas a identificação de experiências como a das Escolas de Famílias Agrícolas, como também dar visibilidade a essas iniciativas, apontar caminhos à transformação dos sistemas agroalimentares e incidir sobre a formulação e execução de políticas públicas.
Por isso, a equipe da “Ação Coletiva Comida de Verdade” intensifica a comunicação e o convite para que as/os protagonistas das diferentes experiências que vêm sendo iniciadas ou intensificadas com vistas ao abastecimento alimentar da população brasileira com alimento saudável e livre de venenos participem desse mapeamento. Para participar, basta preencher o formulário disponível na plataforma Agroecologia em Rede (AeR), um sistema integrado de informações sobre iniciativas de agroecologia e que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica.
“Uma das motivações essenciais da Ação Coletiva é não só registrar as experiências e dar visibilidade para que sejam fortalecidas, mas compreender também quais aprendizados, práticas, conhecimentos geram para que possam ser ampliadas e multiplicadas.”
Elisabetta Recine
Para dar conta da imensidão do mapeamento, cada região do Brasil conta com um/a articulador/a, cuja missão é mobilizar e incentivar as/os agricultoras/es, consumidores, membros de comunidades tradicionais, associações de bairro, conselhos alimentares, organizações da sociedade civil e movimentos sociais a contribuírem com o cadastramento das experiências. Potencializando assim a diversidade de vozes, trajetórias e experiências presente em cada canto desse país.
Os dados coletados pelo mapeamento nos diferentes territórios deverão contribuir para a observação e compreensão das estratégias adotadas pelos diferentes atores que compõem o sistema agroalimentar, servindo de inspiração para outras experiências e fornecendo subsídios para que o Estado e diferentes organizações possam atuar de forma mais efetiva, seja no contexto da pandemia ou para lidar futuramente com situações similares. Além disso, deverão orientar estudos acadêmicos voltados à reflexão sobre os processos de transição para sistemas agroalimentares enraizados nos territórios e a serviço das necessidades da população e caminhos para o seu fortalecimento.
“Uma das motivações essenciais da Ação Coletiva é não só registrar as experiências e dar visibilidade para que sejam fortalecidas, mas compreender também quais aprendizados, práticas, conhecimentos geram para que possam ser ampliadas e multiplicadas. Não de maneira mecânica, como quem olha e reproduz, mas entender quais são os elementos essenciais e que podem servir de inspiração para que se multipliquem e que sejam exemplos”, afirma Elisabetta Recine.
Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Acervo EFAORI