Territórios de partilha: redes de agricultura familiar garantem comida de verdade para quem mais precisa

19 de agosto de 2020

O isolamento social provocou mudanças nos encontros rituais em muitas casas brasileiras. Aquela visita boa no fim de tarde para prosear e tomar um café teve que “ficar para depois”. Os laços criados nas “simples” visitas para partilha do afeto, no entanto, também têm sua potência a longo prazo. No município de Bauru, localizado na região centro-oeste do estado de São Paulo, elas ajudaram a fortalecer uma rede eficaz de comercialização de comida de verdade, a Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA). Criada há oito anos, é ela quem garante uma boa diversidade de alimentos saudáveis na mesa de pelo menos 250 famílias e a garantia de sustento para 15 famílias agricultoras.

Como o próprio nome sugere, a Comunidade que Sustenta a Agricultura não é formada por relações de compra e venda, mas principalmente por uma noção comunitária de responsabilidade sobre todo o processo que garante a produção, a colheita e o acesso aos alimentos produzidos pela agricultura familiar. Quem deseja receber uma cesta diversificada de alimentos saudáveis contribui com uma quantia mensal justa e capaz de garantir a produção dos alimentos durante um ano. Desde a semeadura, as famílias agricultoras não só têm a garantia da comercialização daquela produção, como também conhecem as famílias que se alimentarão dela. 

De acordo com Wagner Santos, coagricultor e um dos fundadores da CSA em Bauru, são relações de afeto e corresponsabilidade, tendo o alimento como fio condutor e a CSA como uma ponte que possibilita o encontro dos percursos. A CSA realiza o levantamento dos custos necessários à produção anual – irrigação, água, energia, equipamentos, compostagem entre outros – e divide os valores pelo número de famílias interessadas em receber alimentos saudáveis, livres de veneno e cultivados com afeto. São 150 CSAs espalhadas por todo o Brasil.

“Esse nome não é à toa, somos uma comunidade de pessoas que sustentam a agricultura. Não o agricultor ou a agricultora, mas a possibilidade da agricultura acontecer. E para que ela aconteça, é necessário que a gente esteja sustentando tudo o que a envolve, o organismo agrícola, a fauna, a flora, os microorganismos, e é claro, as pessoas que trabalham nesse organismo agrícola. O agricultor é quem cultiva a terra, mas na CSA cada membro desempenha outros papéis que igualmente fortalecem o organismo da agricultura, seja na comunicação, no cuidado financeiro ou com o planejamento da produção. Participar de uma CSA é assumir seu papel de protagonismo na agricultura, é passar a servir-se mutuamente. Cada um na sua atividade para que tudo aconteça. Se tem bastante alimento, nós compartilhamos a abundância. Se tiver contratempos, nós compartilhamos os contratempos”, afirma Wagner. 

Embora cada membro desempenhe o seu papel na sustentação da agricultura, os papéis são desempenhados por relações não só de cooperação e partilha, mas principalmente de apreço. Ao contrário do estabelecido pelo capitalismo, onde todos os produtos e as relações são guiadas pela cultura do preço como valor monetário, é a cultura do apreço que prevalece nas redes da CSA.  “Dizemos que na CSA nada tem um preço definido, cada participante está conectado com os agricultores, se torna parceiro, amigo. Antes da pandemia eram realizadas visitas nas hortas, oportunidade que as famílias sempre tiveram de conhecer os agricultores que estão produzindo seu alimento, o cuidado com o plantio. A nossa ideia é promover mudanças em todos os relacionamentos da vida, a começar pelo alimento”, explica. 

Nutrição e variedade

Foto: Acervo/Wagner Santos

Como as famílias fazem para escolher os alimentos que irão receber? Na CSA, quem prepara o cardápio é a terra. Os percursos da produção e da colheita, conforme as estações do ano. “Diferente do que acontece nas redes frias de supermercado ou em algumas feiras, na CSA não se escolhe o que vai comer, eu usufruo daquilo que a terra dá. O agricultor sabe que aquilo que ele está plantando já tem o destino certo, então ele passa a explorar as diversas possibilidades”, explica Wagner.

Somente no ano de 2019, as famílias que compõem a CSA em Bauru tiveram acesso a 62 variedades de alimentos, entre hortaliças, legumes, raízes e frutas. E são os rituais de partilha que, além de garantir que a comida de verdade possa circular entre as diversas famílias, conectando histórias, também ajudam a fortalecer o abastecimento alimentar. “Aqui em Bauru, e regiões próximas, como Botucatu e Ourinhos, a CSA se desenvolveu a partir do convívio das pessoas, umas com as outras. Sempre que alguém chegava à casa de uma família que recebia as cestas e provava alguma coisa, perguntava de onde vinha aquele alimento, toda aquela variedade que não via em outros lugares. E assim a rede foi crescendo”, relembra Wagner, ao ressaltar a importância do envolvimento de profissionais ligados à nutrição e restaurantes na potencialização da comida de verdade. 

Solidariedade que alimenta

O poderoso fio conector do alimento também tem garantido que comunidades tradicionais, como indígenas e quilombolas, possam continuar fortalecendo suas redes de afeto e de defesa dos territórios. Em Montes Claros, região norte de Minas Gerais, cerca de 80 famílias agricultoras de 13 municípios têm produzido uma grande variedade de alimentos para serem distribuídos entre as famílias do território indígena Xakriabá e as comunidades do Quilombo do Gurutuba, território que abrange sete municípios da região, além de famílias em situação de vulnerabilidade na região urbana de Montes Claros.  

A ponte que conecta os percursos entre as famílias agricultoras e as famílias indígenas, quilombolas e urbanas de Montes Claros é erguida pelo Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA). De acordo com Samuel Leite Caetano, membro da CAA, somente em uma ação realizada há dois meses, foram entregues cerca de 2 mil cestas de alimentos, composta por feijão, café, rapadura, queijo, requeijão, polvilho, mexerica, tangerina, laranja, arroz, entre outros alimentos saudáveis, nutritivos e que representam a cultura alimentar da região. 

“Com a pandemia, muitos agricultores tiveram dificuldades de escoar sua produção. E por outro lado, identificamos centenas de famílias em situação de vulnerabilidade, precisando de alimentos. Mapeamos as redes de produção e, com a ajuda de parceiros fundamentais com forte atuação de base, como a Comissão Pastoral da Criança, conseguimos identificar as famílias e os territórios que mais precisam dessas cestas”, afirma Samuel.

Outra parceria importante no fortalecimento das redes de solidariedade é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-terra (MST). A partir de uma forte mobilização no município de Montes Claros, cerca de 2 mil alimentos oriundos dos assentamentos de reforma agrária foram doados às comunidades tradicionais dos territórios e também à população moradora de São Geraldo II, bairro considerado semi-rural do perímetro urbano. “São Geraldo é um espaço formado por famílias que saíram do campo, que vieram com o êxodo rural e que ficaram vulnerabilizadas com a pandemia. Tem uma presença muito grande de crianças, então a Comissão Pastoral da Criança nos indicou essas famílias como beneficiárias de cestas, que são compostas por uma diversidade incrível de alimentos: pelo menos oito tipos de hortaliça, mandioca, farinha de qualidade, abóbora, beterraba, cenoura, mostarda, frutas, entre outros alimentos produzidos pelas famílias assentadas do MST”, aponta Samuel.

Caminhos que tecem soberania

Foto: Acervo/Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA)

Assim como nos rituais de partilha que caracterizam o crescimento da CSA, os fios que conectam as redes de produção e doação na CAA também continuam conduzindo a caminhos de fortalecimento e abundância. Além das mobilizações já realizadas, Samuel explica que outras iniciativas de solidariedade estão sendo gestadas, após as devidas adaptações demandadas pela pandemia da Covid-19.

“Nós havíamos preparado um espaço amplo para o manejo e salvaguarda de sementes crioulas. No entanto, com a pandemia, o transformamos em campos de produção de alimentos de ciclos curtos, como cenoura, beterraba, mandioca e milho, por exemplo. Eles garantirão minimamente a segurança alimentar das famílias que precisam, como os indígenas do território Xakriabá e do Quilombo do Gurutuba”, adianta Samuel.

Além dos alimentos, também estão sendo distribuídos kits de higiene e proteção. Junto com as cestas de alimentos, também foram entregues cerca de 4 mil máscaras produzidas por um grupo de mulheres de Malhada Grande, localizado no Quilombo do Gurutuba; e mil litros de álcool em gel produzidos pela Cooper Cachaça de Salinas – uma cooperativa formada por agricultores da região – em parceria com o Instituto Federal de Salinas. “Agora estamos fortalecendo um projeto de produção de sabão a partir do óleo do algodão, com as mulheres de Malhada Grande. A ideia é que esse sabão passe a compor a cesta de itens que está sendo entregue às famílias”, explica. 

A dimensão do cuidado

O cuidado é a dimensão que faz com que todas essas histórias e percursos se conectem e garantam que a comida de verdade chegue até as pessoas, segundo a assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil, Helena Lopes. 

“Em uma conversa recente com o Samuel, do CAA, ele me falou de um agricultor familiar que não estava conseguindo realizar o que seria o maior fazer dele, garantir que o alimento produzido ali no campo chegasse às pessoas que precisavam comer. E que o agricultor relatou sobre como foi importante para ele o CAA ter realizado com os agricultores e agricultoras da região as estratégias de distribuição. Isso deu um ânimo a eles, ao garantir que o alimento produzido poderia chegar às pessoas que precisam se alimentar, cumprindo, assim, uma das responsabilidade do que é ser agricultor”, relata Helena. 

Para ela, a riqueza constatada a partir do mapeamento dessas experiências não é apenas na diversidade nos tipos de alimentos oferecidos, mas também nos saberes que, ao longo de anos e gerações, garantem os modos de vida e a defesa dos territórios. “A diversidade é um componente essencial, porque demonstra a riqueza desses fazeres que acontecem nas diferentes regiões do Brasil, nos diferentes biomas. Os alimentos nos falam da combinação de diferentes práticas e saberes, de acúmulos tão necessários para conseguir realocar toda a logística de distribuição ou comercialização desses alimentos em tempos de pandemia. Além disso, o que experiências como essas nos mostram é um precioso fazer comum pautado pela solidariedade, por componentes que colocam luzes sobre outros mundos possíveis que já estavam operando nos territórios e que nos contam sobre outras relações entre as pessoas e entre as pessoas e a natureza”, analisa Helena. 

Mapeamento de experiências 

As experiências do CAA e do CSA fazem parte do amplo leque de iniciativas de soberania alimentar que ajudam a garantir a realização do direito à alimentação saudável e adequada e que, por isso, integram o mapeamento realizado pela Ação Coletiva Comida de Verdade: aprendizagem em tempos de pandemia, que busca não apenas a identificação de experiências como essas relatadas por Wagner e por Samuel, mas também apontar caminhos à transformação dos sistemas agroalimentares e incidir sobre a formulação e execução de políticas públicas. 

“Mapear as experiências é criar espaços de aprendizado sobre como diferentes atores e organizações coletivas têm se adequado para garantir o alimento. É promoção de um intercâmbio entre as próprias experiências que fortaleça sobretudo as práticas cotidianas que acontecem nos territórios. Além disso, acho que o levantamento dessas experiências recobra o papel do Estado no fortalecimento e execução de políticas públicas adequadas, desde a produção até a distribuição da comida de verdade. É importante destacar que a comida de verdade é aquela livre de transgênicos, agrotóxicos, produzida em respeito aos territórios e, também, livre de conflitos sociais e ambientais”, destaca a assessora de Agroecologia e Justiça Climática da ActionAid Brasil.

Por isso, a equipe da Ação Coletiva Comida de Verdade intensifica a comunicação e o convite para que as/os protagonistas das diferentes experiências que vêm sendo intensificadas ou iniciadas, com vistas ao abastecimento alimentar da população brasileira com alimento saudável e livre de venenos, participem desse mapeamento. Para participar, basta preencher o formulário disponível na plataforma Agroecologia em Rede (AeR), um sistema integrado de informações sobre iniciativas de agroecologia e que reúne mais de 1.600 experiências de base popular e agroecológica.

Para dar conta da imensidão do mapeamento, cada região do Brasil contará com um/a articulador/a, cuja missão é mobilizar e incentivar as/os agricultoras/es, consumidores, membros de comunidades tradicionais, associações de bairro, conselhos alimentares, organizações da sociedade civil e movimentos sociais a contribuírem com o cadastramento das experiências. Potencializando assim a diversidade de vozes, trajetórias e experiências presente em cada canto desse país.

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Acervo/Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA)