Redes territoriais de produção e consumo de alimentos distribuem comida de verdade por todo o Brasil

14/10/2020

O mapeamento de experiências de abastecimento alimentar da Ação Coletiva Comida de Verdade se aproxima da reta final. As organizações populares, coletivos, redes e movimentos sociais, do campo e da cidade, têm até o dia 31 de outubro para responder ao formulário e cadastrar a sua experiência. Por outro lado, inúmeras e heterogêneas iniciativas já cadastradas em diferentes pontos do território nacional têm revelado infinitas possibilidades de atuação em rede, ações de fortalecimento da agricultura familiar e de incidência política e coletiva pela transformação social, mesmo diante dos desafios colocados a partir da pandemia da Covid-19. 

Em cada experiência mapeada, há histórias de vida que se enredam, de trabalho e de forças coletivas. Relatos de sistemas alimentares saudáveis, economicamente dinâmicos, tecnicamente eficientes e ecologicamente sustentáveis, construídos com persistência e resiliência, garantindo que a comida de verdade siga alimentando não só os corpos, mas também os sonhos e os modos de vida construídos a partir dos territórios.

A resistência coletiva e a potência da atuação em rede, mesmo em um cenário social, econômico e politicamente delicado, são pontos de convergência que merecem destaque. É o caso das “Células de Consumidores Responsáveis”, em Florianópolis, Santa Catarina; da Associação de Agricultores Alternativos (AAGRA), em Igaci, Alagoas; e do Banco de Alimentos de Rio Branco, no Acre. Apesar das especificidades regionais e dinâmicas próprias de atuação, são experiências que têm pontos de convergência inspiradores: a promoção de relações mais diretas entre produtores e consumidores e o desenvolvimento de circuitos curtos de abastecimento, aproximando assim o campo e a cidade.

Células de Consumidores Responsáveis

“As células são a composição fundamental de um organismo, onde cada uma tem seu grau de autonomia para construir seu arranjo organizativo, definir suas regras próprias. E, ao mesmo tempo em que compõem um organismo maior, elas exercem papel integrativo”. É a partir da metáfora com as unidades estruturais e funcionais dos seres vivos que o engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Oscar Rover, define as comunidades ou grupos de pessoas que apoiam a agricultura familiar.

Foto:  Isadora Escosteguy

Formalizada em 2018 pelo Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar (Lacaf), do Centro de Ciências Agrárias da UFSC, a iniciativa das Células de Consumidores Responsáveis é uma tecnologia social que abrange os municípios de Florianópolis e São José. Cada célula é composta por um grupo de agricultores que produz cestas agroecológicas, saudáveis e diversificadas, e um grupo de consumidores que paga mensalmente um valor justo pela compra das cestas.

Ao todo, são cinco grupos de agricultores, compostos por cerca de 60 famílias agricultoras; e quase 500 famílias consumidoras, distribuídas em 12 células. Quanto às cestas, são elaboradas a partir de três pilares fundamentais: peso, diversidade e preço. “A cesta pequena deve ter 4,5 quilos e a grande, 9 quilos, no mínimo. Para garantir a agrobiodiversidade, princípio básico da agroecologia, precisa-se garantir no mínimo duas folhosas, dois legumes, duas frutas, uma raiz e um tempero ou chá. Na cesta grande, se acrescenta um tipo de grão. Quanto ao terceiro princípio, que é o preço, entendemos que é preciso ter um olhar mais profundo sobre o valor justo, que é o equilíbrio entre um valor referente ao trabalho produzido e que seja acessível ao consumidor”, explica Rover, que também é coordenador do Lacaf.

São os próprios produtores e consumidores que cuidam da gestão das células, da dinâmica de produção e da logística de entrega das cestas. Ao laboratório, cabe o trabalho de assessoria. “Temos um bolsista com uma carga horária semanal de 20 horas que assessora e auxilia em alguns procedimentos. O Lacaf conta com uma boa equipe de mestrandos, doutorandos e acima de tudo somos um grupo de idealistas. Fazemos reuniões semanais para observar o andamento das células e elaboramos materiais pedagógicos, a exemplo da cartilha voltada à agricultores que desejam abastecer células e aos consumidores que desejam ser abastecidos por esses agricultores. Criamos também um mapa da Rede de Cidadania Alimentar da Grande Florianópolis para subsidiar a busca por grupos de agricultores, consumidores, células ou feiras”, destaca Oscar, confirmando a importância da universidade pública na aliança entre a pesquisa e as ações de comprometimento social.   

Assim como em outros lugares do país, os impactos da pandemia chegaram forte nas Células de Consumo Responsável de SC. “Na região Sul, a agricultura está muito envelhecida, e os idosos são grupo de risco da Covid-19. Então, alguns desistiram e até hoje não voltaram. Fizemos algumas reuniões virtuais para estabelecer protocolos e fazer combinados. Hoje temos protocolos de segurança bem definidos, seja para os agricultores, na montagem das cestas e no transporte, seja para os consumidores, na retirada. E o volume de demanda foi uma elevação surpreendentemente grande, o componente da venda direta entre o agricultor e o consumidor cresceu tremendamente nesse período. Muitos deles ficaram proibidos de comercializar nas feiras e hoje atendem a uma demanda maior, e investindo menos tempo do que na feira, que é um espaço incrível, mas o tempo é um dos bens mais preciosos que todos nós temos nos dias atuais. Então, se numa feira o agricultor passa um dia inteiro, por exemplo, nas células ele simplesmente chega ao local para deixar as cestas prontas e segue seu dia. Um dia a mais voltado à família ou à organização do plantio, por exemplo, é muito importante para o agricultor”, explica Oscar.

Associação de Agricultores Alternativos

Se o apoio da universidade pública é um ponto forte para as Células de Consumo Responsável, políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) fazem a diferença para a Associação de Agricultores Alternativos (AAGRA) no município alagoano de Igaci. Antes da pandemia, a AAGRA, que é formada por cerca de 80 agricultores associados, fornecia cerca de 800 litros semanais de leite de cabra, a partir de um contrato com a Secretaria de Estado da Agricultura, Pecuária, Pesca e Aquicultura de Alagoas, para cerca de 200 famílias e mais três comunidades em situação de vulnerabilidade social, no município de Arapiraca. Com a suspensão temporária do programa, a associação passou a fornecer com uma cota semanal de 400 litros. Embora represente metade da cota que era distribuída no período anterior à pandemia, a coordenadora do programa de Produção e Comercialização da AAGRA, Gleice Mary Gomes, destaca que o número merece ser celebrado.    

Foto: Acervo Banco de Alimentos de Rio Branco

“Os últimos meses têm sido muito difíceis para os agricultores conseguirem escoar seus produtos, com o cancelamento das feiras, a suspensão das aulas e do fornecimento de alimentos para o PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar]. Então, desde setembro estamos voltando aos poucos e o respeito ao ritmo de produção da natureza é um princípio. As cabras têm seu tempo de produzir o leite de maneira saudável”, afirma Gleice.

Além do leite de cabra fornecido por meio do PAA, a AAGRA também passou a fornecer sementes crioulas. Somente para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), foram quase 5 toneladas de sementes de feijão da variedade rosinha, que por sua vez foram entregues para agricultores de 11 municípios do estado de Alagoas. “As sementes possibilitaram que os agricultores pudessem produzir nas suas propriedades. Recebemos depoimentos dos agricultores relatando que a distribuição das sementes crioulas chegou no tempo ideal para que eles conseguissem plantar no inverno e fazer a multiplicação dessas sementes, que representam uma alternativa de convivência e fortalecimento da agricultura familiar diante da expansão dos alimentos transgênicos”, destaca Gleice.

Através da campanha “Proteja e salve vidas”, cerca de 2 mil cestas agroecológicas produzidas por agricultores associados à AAGRA foram doadas a famílias indígenas, quilombolas e da periferia urbana, que se encontravam em situação de vulnerabilidade, distribuídas em 15 municípios de Alagoas. Criada a partir de uma parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB), a ação emergencial, além de firmar o valor da solidariedade junto às famílias que passaram integrar o grupo de pessoas em insegurança alimentar em meio à pandemia, também representou uma maneira de contribuir com os agricultores que sentiam dificuldades para escoar seus alimentos, produzidos de maneira saudável, sustentável e livre de venenos. “Foram mil famílias beneficiadas diretamente, cada uma recebeu duas cestas. Foi um desafio enorme, porque com o PAA e o PNAE, trabalhávamos apenas com agricultores do Agreste e municípios mais próximos. Mas, como a demanda por essas cestas foi maior e em um curto prazo para a produção e montagem, tivemos que articular agricultores de outros territórios, como do Sertão e da Zona da Mata”, destacou Gleice. 

Banco de Alimentos

A solidariedade é um valor inestimável e convergente a todas as experiências de abastecimento alimentar com comida de verdade. Na capital do Acre, Rio Branco, o Banco de Alimentos cumpre o nobre papel de ser mediador do bem. Os alimentos chegam através de doações e de investimentos públicos e, após um processo de reorganização, são distribuídos para instituições comprometidas com a promoção da soberania e da segurança alimentar e nutricional de populações em situação de vulnerabilidade.  

Foto: Acervo Banco de Alimentos de Rio Branco

“Nosso carro-forte são as frutas e hortaliças. Recebemos doações de comerciantes, feirantes que fornecem no CEASA [Central de Abastecimento] e a partir de compras institucionais que temos a chance de fazer a partir do PAA. Nossa equipe vai buscar esses alimentos que, ao chegarem aqui, passam por uma triagem e por avaliação nutricional. Quando liberados, eles seguem para as entidades beneficentes: ONGs, casas de abrigos, abrigos municipais, lar de crianças, lar de idosos ou escolinhas comunitárias de futebol”, explica a gestora do Banco de Alimentos que funciona há cerca de oito anos no espaço do CEASA de Rio Branco, Dalcicléia Alves.

Ao todo, são cerca de 26 mil famílias beneficiadas com os alimentos distribuídos. E, se por um lado a pandemia da Covid-19 apresenta desafios, por outro, também impulsiona o sentimento de solidariedade. “Por incrível que pareça, o Banco de Alimentos cresceu mais ainda na pandemia. Houve uma procura maior de doadores para ofertar alimentos e um cuidado mais intenso nas entidades internas. Conseguimos ampliar as doações para públicos como moradores de rua, catadores de materiais recicláveis e moradores de abrigos”, enfatiza a gestora.

Além de doar os alimentos, a equipe do Banco também fortalece as ações de Educação Alimentar e Nutricional, visando o aproveitamento integral da comida. “Sempre procuramos formas de mostrar possibilidades de usar os talos das hortaliças, a entrecasca da melancia, por exemplo, ou a possibilidade de produzir geleias com sementes de outras frutas”, explica Dalcicléia, ao destacar que muitas dessas receitas podem ser encontradas no instagram do Banco de Alimentos. 

“É muito importante que nossos governantes tenham um olhar diferenciado para a área da segurança alimentar, porque inclusive ajuda a prevenir doenças, principalmente no contexto da pandemia, e garantir o fortalecimento da imunidade. Muitas dessas famílias que recebem as doações não têm com o que se alimentar, não possuem uma renda. Muitas vezes, precisam escolher entre o arroz e o leite. Nós, que acompanhamos o dia a dia dessas instituições, percebemos até no olhar das pessoas a diferença que faz uma doação dessa para uma criança, uma pessoa idosa. É algo extraordinário poder promover isso”, destaca.

Arranjos Locais

De acordo com o coordenador executivo da Ação Coletiva Comida de Verdade, Paulo Petersen, as experiências em destaque nos estados de Santa Catarina, Alagoas e Acre contrastam com a maneira hegemônica como os sistemas alimentares têm se organizado nas últimas décadas – o processo de produção cada vez mais distanciado do consumo e a intermediação realizada por grandes empresas e corporações que operam em grande escala e através da padronização. 

Foto:  Isadora Escosteguy

“Experiências como essas, embora em contextos e origens diferentes, nos apontam um mesmo princípio: o das redes territoriais de produção e consumo de alimentos, que são geridas pelos próprios atores que estão nos territórios. É a partir de redes de interconhecimento que se constrói sobretudo a confiança mútua, pois quem consome, sabe a qualidade da produção”, destaca Paulo, que também é coordenador executivo da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia. 

Para ele, essas ações distribuídas pelo território nacional sempre existiram, fortalecendo a biodiversidade, a renda que circula no território, a saúde e a vitalidade da agricultura familiar camponesa. No entanto, passam por um processo de invisibilização. A ação determinada do Estado no sentido de apoiar iniciativas autônomas de organizações da sociedade civil como as que identificamos nessas experiências é uma condição essencial para que esse quadro seja revertido. 

“É em nome de uma visão globalizada da alimentação que se compromete a soberania e a segurança alimentar e nutricional, e ao mesmo tempo gera uma série de externalidades negativas para a economia, para a distribuição de renda e para a agrobiodiversidade. Essas experiências são ressaltadas exatamente nesse período de pandemia. Elas demonstram a importância da ação concertada entre o Estado e a sociedade civil, seja através de políticas de compra institucional, seja a partir do apoio de pesquisadores e servidores públicos nas universidades no sentido de facilitar a intermediação e a conexão entre a produção e o consumo ou por meio de uma ampla diversidade de arranjos institucionais possíveis em um Estado democrático e de direitos. Sem esse apoio dos poderes públicos, as iniciativas seguirão existindo motivadas pelo espírito de solidariedade amplamente disseminado na sociedade. Mas seguirão sendo invisibilizadas, encontrando muitas barreiras para se consolidarem”, explica Paulo.

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa:  Isadora Escosteguy

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