Entre narrativas e disputas: seminário da Ação Coletiva aponta possibilidades para a transformação dos sistemas agroalimentares

07/10/2020

“Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome”

(“Tem gente com fome”, de Solano Trindade)

“Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão”

(“O cio da terra”, de Chico Buarque e Milton Nascimento)

Sob o resgate da memória do poeta pernambucano Solano Trindade e a melodia de Chico Buarque e Milton Nascimento, a Ação Coletiva Comida de Verdade realizou, na tarde de 2 de outubro, o seminário “Sentidos e práticas da comida de verdade: entre a captura e a emancipação”. As palavras e sons que poeticamente retratam o milagre fecundo da terra e a riqueza do trabalho humano em produzir alimentos, entoadas pela artista e educadora popular da Escola de Teatro Popular do Rio de Janeiro (RJ), Thais Paiva, abriram os diálogos sobre a comida de verdade a partir de diversas vertentes que compõem seus sentidos e percursos, como a construção e disputa de narrativas, estratégias regulatórias para estimular a oferta e o consumo de alimentos saudáveis e possibilidades de incidência no âmbito municipal, entre outros temas.  

Conduzido pela docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Inês Rugani, e pelo consultor da Aliança Global para o Futuro da Alimentação e chef de cozinha, Matheus Zanella, o terceiro seminário realizado pela Ação Coletiva contou com a presença do assessor estratégico da ActionAid e docente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Jorge Romano, e da pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e consultora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Paula Bortoletto.  

A fina costura da inspiração, essencial aos diálogos que trazem à luz assuntos tão sensíveis e transformadores, foi tecida pela docente da Universidade de Brasília (UnB), Elisabetta Recine. Para ela, diante de processos de desestruturação de políticas públicas voltadas à promoção da segurança alimentar e nutricional, é preciso destacar as experiências que geram justiça social nos seus processos de produção,  comercialização e consumo de alimentos.

“A comida de verdade não é uma utopia, ela  é um processo. Ela não começa e termina como uma linha reta, cada ponto dessa rede impacta e repercute nos outros pontos. Essa é a visão sistêmica do sistema alimentar que une produção e saúde, alimento e nutrição, saúde, vida e justiça. Esse é o significado que tem sido capturado por vários setores da sociedade. Tem muitas ações sendo desenvolvidas. O que a gente precisa é dar visibilidade, força e contribuir para  que elas se multipliquem”, afirmou Elisabetta. 

A comida de verdade não é uma utopia, ela  é um processo.

Elisabetta Recine

Para ela, o grave quadro de insegurança alimentar a que a população brasileira está submetida, comprovado pela divulgação dos resultados da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), coletada na Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2017-2018), refletem as decisões políticas por parte do Estado. E, como toda denúncia deve preceder um anúncio de transformação, Elisabetta também destacou a urgência e necessidade de potencializar os percursos que garantem a comida de verdade no prato das pessoas.

“Os dados de insegurança alimentar e nutricional expressam a imensa injustiça e desigualdade que esse país vive e que não precisaria viver. Mostram uma situação agravada pelo desemprego, trabalho informal, insustentabilidade do próprio sistema alimentar. E isso se deve ao enfraquecimento das políticas públicas que fortaleciam a agricultura familiar, a produção orgânica e agroecológica. Mas nós também temos o outro lado que merece ser visto e ser fortalecido e para isso existe a Ação Coletiva. Para exaltar as inúmeras experiências de uma outra realidade que acontecem nas nossas comunidades e a partir de uma forma de produção de alimentos resiliente, sustentável, agroecológica, que gera riqueza e vida ao longo do processo”, destacou a professora.

Disputa de narrativas

As iniciativas citadas pela docente da UnB representam um amplo e heterogêneo conjunto de experiências de sistemas agroalimentares protagonizadas por organizações populares, coletivos, redes e movimentos sociais, do campo e da cidade, que têm garantido que a comida de verdade chegue à população brasileira, mesmo diante das condições adversas trazidas não só pela pandemia da Covid-19, mas também pela desafiadora conjuntura política e econômica que o Brasil tem enfrentado. 

O futuro é desafiador, mas está aberto à disputa hegemônica.

Jorge Romano

São ações que, através do alimento produzido pelas mãos da agricultura familiar, trazem em seu percurso histórias de vida, de solidariedade e que ajudam a promover justiça social. Contar essas histórias e mostrar que é possível transformar os sistemas agroalimentares é um dos objetivos da Ação Coletiva Comida de Verdade. 

De acordo com Jorge Romano, assessor estratégico da ActionAid e docente da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), onde coordena o grupo de Pesquisa ‘Discurso, Redes Sociais e Identidades Políticas’, a transformação de uma realidade passa estrategicamente pela construção de discursos que fortaleçam os sentidos e valores da ação emancipadora.

“A disputa de discursos em um processo hegemônico tem efeito sobre as identidades no mundo de hoje, como as de cidadão, de consumidor. São identidades múltiplas, descentralizadas, fragmentadas, que estão em um processo de construção e abertas a diferentes articulações. E os discursos procuram levar a cabo articulações específicas e de acordo com seus interesses. Esses discursos políticos em disputa podem ser entendidos como um conjunto de marcos de interpretação da realidade, que funciona estruturando nosso pensamento, nossa fala, as nossas ações individuais e coletivas. Compõem nossa forma de ver o mundo. Então, se a gente muda os marcos, mudamos essa forma de ver o mundo. É com este olhar que estamos tentando entender a disputa de narrativas no campo do agronegócio e no campo da agroecologia”, explicou Romano. 

Ao contextualizar os pormenores que compõem a disputa de narrativas, o docente da UFRRJ também abordou a necessidade de desenvolver uma visão mais ampla e atenta acerca das contradições inerentes ao discurso hegemônico. “O agronegócio é representado pelos ativos econômicos, financeiros e tecnológicos ao longo da cadeia do valor e pelos valores do ‘capitalismo consciente’. Para atingir esse objetivo, se constrói discursos, os ‘agromitos’, que não apenas confundem a opinião pública, mas também influenciam as políticas públicas. Um bom exemplo é o uso dos termos saúde e sustentabilidade, componentes centrais associados à matriz do discurso agroecológico e que são usados pelo agronegócio em seus discursos. Com esse bordão de ‘agro é tech, agro é pop, agro é tudo’, por exemplo, o setor tenta disseminar “boa informação” para divulgar uma agenda que é negativa, que provoca, por exemplo, o desmatamento”, afirmou. 

Do ponto de vista da agroecologia, campo de atuação e produção de conhecimento construído a partir do indissociável tripé ciência-prática-movimento, Romano destacou as possibilidades que as comunidades tradicionais, os movimentos sociais, organizações do terceiro setor, pesquisadores e pesquisadoras, entre outros agentes comprometidos com a soberania alimentar e o direito humano à alimentação adequada, podem lançar mão na disputa dessas narrativas.

“O futuro é desafiador, mas está aberto à disputa hegemônica. O campo agroecológico precisa sair da bolha, parar de falar de nossos temas e com nós mesmos e entender melhor os discursos do campo do agronegócio, identificar suas estratégias narrativas e seu campo discursivo. É partindo do entendimento de discurso desse outro antagônico que podemos construir estratégias para tentar trazer a população urbana e rural a uma compreensão dos problemas e a um projeto justo e sustentável. Paradoxalmente, uma das causas do problema pode ser a solução, que são as próprias mídias sociais. Não temos volume de recursos para o uso mais massivo dos meios de comunicação, mas temos criatividade, temos histórias, relatos de vida que despertam emoção. Temos que nos somar aos comunicadores que atuam nas ONGs e nos movimentos sociais e construir narrativas junto com eles. Aproveitar o potencial dessas mídias sociais, escutar o outro com quem queremos falar e encontrar essas pontes de emoção, de valores. Nós somos ilhas de excelências, mas temos que ser continentes de esperança”, complementou o professor e pesquisador.

Ações de transformação

Além da construção de discursos e narrativas, o seminário também abordou as possibilidades de ações voltadas à promoção de ambientes alimentares saudáveis. De acordo com a  pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) e consultora do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Ana Paula Bortoletto, é preciso ter atenção aos determinantes que conduzem o comportamento e as escolhas do público consumidor quanto à alimentação. 

“Nós vivemos ambientes alimentares que estimulam qualquer tipo de consumo, em qualquer quantidade de produtos ultraprocessados, com uma publicidade massiva que atrai o consumidor para consumir aquilo através de uma falsa imagem de saúde, bem estar e acessibilidade. São muitos estímulos e determinantes das escolhas alimentares que afetam o comportamento individual de forma muito intensa, e as narrativas muitas vezes é o que molda o comportamento do cidadão, do consumidor”, contextualizou Ana Paula.

A partir da exposição das falácias do discurso da indústria alimentícia e dos males do consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, ela destacou caminhos possíveis, do ponto de vista regulatório, com vistas a promover transformações concretas nas possibilidades de escolha da população.   

São muitos estímulos e determinantes das escolhas alimentares que afetam o comportamento individual de forma muito intensa, e as narrativas muitas vezes é o que molda o comportamento do cidadão, do consumidor

Ana Paula Bortoletto

“Um dos caminhos para mudar o ambiente alimentar desfavorável para escolhas e práticas alimentares saudáveis é pensar em ações indutoras que incidam sobre certos pontos do sistema alimentar que possam desfavorecer o consumo desses produtos e estimulem o consumo da comida de verdade. Exigir maior informação ao consumidor sobre os riscos à saúde, em relação aos rótulos dos alimentos, pensar em formas de tributação que corrijam as distorções que temos hoje com relação aos preços dos produtos que não são saudáveis, restringir a publicidade de alimentos não saudáveis, que ainda é muito ostensiva para o público infantil, a gente tem que estabelecer regras melhores e fazer cumprir regras que já existem quanto a esses pontos”, apontou a consultora do Idec.

Para ela, é preciso fortalecer a própria oferta de alimentos em espaços institucionais e incidir sobre os processos de debate e decisão a respeito das regras relacionadas à comercialização de alimentos. “Um tema importante para essa agenda regulatória é pensar em compras públicas para escolas, hospitais, compras institucionais que favoreçam a presença de alimentos saudáveis. Um outro exemplo é pensar na legislação sanitária, que acaba dificultando o acesso de pequenos produtores às compras públicas”, afirmou Ana Paula.

Para Elisabetta Recine, além do acesso à alimentação saudável, a autonomia culinária representa um poderoso campo de transformação, na medida em que fortalece o poder de decisão das pessoas e pode transformar positivamente as relações, inclusive as relações de gênero. “A culinária é de uma riqueza fantástica. Há inúmeros estudos que mostram que, quanto mais autonomia você tiver na cozinha, mais capacidade você tem de exercer a alimentação saudável, de não depender de pacotes, abrir a geladeira e com poucos ingredientes inovar a cada momento. Mas a culinária também tem um papel relacionado a aos papéis de gênero. É necessário não  reforçar injustiças, desigualdades. Não há aquele que cozinha e aquele que come, mas todo mundo precisa entrar na mesma panela”, afirmou Recine, que também foi presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) nos anos de 2017 e 2018.

Horizontes

A iminência do processo eleitoral em âmbito municipal aponta oportunidades de incidência para o conjunto das organizações, entidades e movimentos sociais comprometidos com a promoção da agroecologia, da soberania alimentar e da segurança alimentar e nutricional no Brasil e que já vêm promovendo debates públicos sobre as possibilidades de atuação dos poderes executivo e legislativo dos municípios nesse sentido. 

De acordo com Ana Paula Bortoletto, esse é o momento de fortalecer a organização popular e a atuação em rede para reivindicar ações e políticas. “Muitos pontos não cabem ao município legislar. Mas existem várias possibilidades para o gestor público municipal pensar nessa facilidade do acesso ao alimento mais saudável, à comida de verdade. Em ações que regulem a oferta de alimentos saudáveis nas escolas, que restrinjam a publicidade de alimentos, como por exemplo em parques e outros locais públicos municipais. Parâmetros que podem incidir para garantir de fato a informação adequada dos alimentos que não devem ser consumidos”, afirmou.

Assista ao seminário “Sentidos e práticas da comida de verdade: entre a captura e a emancipação”

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Jametlene Reskp