Cultura, afeto e memória: a relação entre alimento e território é abordada em seminário da Ação Coletiva

09/09/2020

Abacateiro

Acataremos teu ato 

Nós também somos do mato

Como o pato e o leão

Aguardaremos

Brincaremos no regato

Até que nos tragam frutos

Teu amor, teu coração

Refazenda, Gilberto GIl

Nada mais apropriado para dialogar sobre comida de verdade do que através da cultura que nos fala das memórias, dos afetos construídos nos territórios de pertença e do respeito ao tempo do cuidado e da colheita. E foi sob a inspiração das palavras do compositor Gilberto Gil, cantadas pela voz de Léo Brito – que em parceria com a musicista Luciana Lins forma o Duo Fuá do Cerrado – que a Ação Coletiva Comida de verdade: aprendizagem em tempos de pandemia iniciou o seminário “Territórios e sistemas agroalimentares sustentáveis”, na tarde da última quinta-feira, 3 de setembro.

Conduzido pela docente da Universidade de Brasília (UnB), Mireya Valencia, e pela pesquisadora pós-doc da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Potira Preiss, o seminário teve como convidadas/os a fundadora do Instituto Maniva e ecochef, Teresa Corção; o membro-fundador da CSA Brasil, Ariel Molina; a agricultora e integrante da coordenação do Polo da Borborema, Roselita Vitor; e o docente da Universidade Federal do ABC (UFABC), Arilson Favareto. 

A relação entre o alimento e o território foi o elemento central dos diálogos, ou seja, a comida como fio condutor da teia diariamente erguida pelas pessoas que de seus locais constroem relações para estruturar os sistemas agroalimentares. Com o objetivo de inspirar os rumos do debate, Arilson Favareto apresentou as dimensões que formam um sistema agroalimentar saudável e sustentável. Para ele, são pontos-chave a preservação de uma base socioecológica, a atenção aos aspectos socioeconômicos das relações tecidas entre produtoras/es e consumidoras/es e a conservação das expressões socioambientais.

“Quando valorizamos produtos locais, fortalecemos os vínculos entre a agricultura, a alimentação e o território, e a renda produzida circula fortemente entre os próprios territórios, criando laços socioeconômicos entre produtoras/es e consumidoras/es.”

Arilson Favareto

“Para que a gente chame um sistema agroalimentar de saudável e sustentável, ele precisa se ancorar em três aspectos. O primeiro diz respeito à base socioecológica, ou seja, aos vínculos entre a produção e o consumo de alimentos, que ocorre quando esse sistema dialoga com a biodiversidade local. Um segundo aspecto reside na questão econômica. Quando valorizamos produtos locais, fortalecemos os vínculos entre a agricultura, a alimentação e o território, e a renda produzida circula fortemente entre os próprios territórios, criando laços socioeconômicos entre produtoras/es e consumidoras/es. Por fim, a valorização dos circuitos curtos de abastecimento favorece a conservação socioambiental, na medida em que reduz os impactos do deslocamento dos alimentos e evita mudanças nocivas do uso do solo”, explica Favareto. 

Da cultura do preço à cultura do apreço

Na rede de circulação do alimento, cada pessoa possui um papel importante para a transformação dos sistemas agroalimentares: produtoras/es, consumidoras/es e outras/os profissionais que têm o alimento como ferramenta central de trabalho. A conexão entre esses papéis foi abordada por Teresa Corção, Ariel Molina e Roselita Vitor a partir de suas respectivas experiências e com a maestria que só o diálogo de saberes pode apresentar. 

Ariel é membro-fundador da Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA-Brasil), uma grande rede com mais de 150 pontos em todo o país que conecta produtoras/es e consumidoras/es em relações de parceria. Para ele, o estabelecimento de novas formas de relacionamento entre campo e cidade, diferentes das convencionadas pelo mercado, produzem grandes transformações sistêmicas.

“Que tipo de responsabilidade, de compromisso eu posso ter com as pessoas que garantem o meu alimento?”

Ariel Molina

“Enquanto estamos vivos, nos alimentos pelo menos três vezes por dia. E a gente precisa entender que, mesmo uma simples salada que comemos hoje, foi plantada por alguém meses atrás. Que tipo de responsabilidade, de compromisso eu posso ter com as pessoas que garantem o meu alimento? Dentro de uma CSA não acontece uma relação de compra e venda, é formada uma parceria. Rompemos com paradigmas mercantilistas. Ao mesmo tempo, fortalecemos a biodiversidade, pois as/os agricultoras/es têm a oportunidade de plantar itens diversificados que custam menos insumos, e as famílias consumidoras passam a conhecer outros sabores, através de cestas potencialmente nutritivas. É por isso que as/os consumidores são coagricultoras/es, não apenas pessoas que vão lá comprar seus alimentos”, afirma Ariel.     

Saiba mais em “Territórios de partilha: redes de agricultura familiar garantem comida de verdade para quem mais precisa”

Foto: Ruandson Vitor/Arquivo Polo da Borborema

Ao lado das relações de afeto destacadas por Ariel como significativas à potencialização da comida de verdade, a agricultora e integrante do Pólo da Borborema, Roselita Vitor, ressaltou a força da memória que tem o alimento vinculado ao território. “Quando pensa na alimentação, não pensa só de comer em si. O alimento tem uma relação muito grande com o nosso território. Por exemplo, você amanhecer o dia no Semiárido, com o sol nascendo, e ter o prazer de comer uma macaxeira com manteiga da terra nos remete a um novo dia. Um dia de trabalho, mas um dia que a gente celebra esse alimento. E a gente sabe o quanto isso nos move desde criança, o quanto essa cultura do nosso alimento permeia nossa própria história. Eu cresci dessa forma e lembro disso desde muito pequena”, relembra Roselita.

“Quando pensa na alimentação, não pensa só de comer em si. O alimento tem uma relação muito grande com o nosso território”

Roselita Vitor

Comida de verdade

Foto: Maria Sol Silva

As relações entre campo e cidade também se transformam a partir do acesso das pessoas da cidade ao alimento agroecológico. De acordo com Roselita, é aí que se destaca a importância do fortalecimento das redes de produção e comercialização da agricultura familiar. “Nesse processo de resistência, a gente vem estimulando redes de agricultores e agricultoras que trazem os seus produtos do sítio. Quando algumas feiras passaram a funcionar parcialmente, fortalecemos também as quitandas agroecológicas, espaços onde as pessoas podem pegar a alimentação saudável, do campo, num circuito muito pequeno e que tem menos risco de contaminação inclusive para a população da cidade”, explica Roselita ao ressaltar a importância da tecnologia para superar os desafios trazidos pela pandemia da Covid-19, pois é através dos grupos de whatsapp que agricultoras/es e consumidoras/es se comunicam a respeito das entregas dos alimentos.   

“A pandemia não foi uma escolha, fomos impostos a passar por isso. Mas mudar os hábitos alimentares é uma janela que se abre para nós diante de toda essa crise”

Teresa Corção

Há 15 anos à frente do Instituto Maniva, uma inovadora rede de produtoras/es rurais, consumidoras/es e chefs de cozinha formada com o objetivo de promover a melhoria da qualidade alimentar das sociedades rural e urbana, agregar valor aos agricultores familiares agroecológicos através da gastronomia e favorecer a biodiversidade local, Teresa Corção abordou a importância da conexão entre os profissionais da gastronomia, os territórios e os protagonistas que garantem a produção do alimento.

“A pandemia não foi uma escolha, fomos impostos a passar por isso. Mas mudar os hábitos alimentares é uma janela que se abre para nós diante de toda essa crise. Ao longo desses 15 anos de trabalho, estivemos em muitos territórios e pudemos conhecer produtos de alta qualidade gastronômica. Descobrimos produtores que são verdadeiros mestres na arte de produzir alimentos ricos, a exemplo do seu Bené, o Benedito Batista da Silva, no Pará, que nos apresentou a farinha de mandioca d´água. A história do seu Bené com a farinha d´água virou um pequeno documentário. Hoje ele é mestre e dá aula no Sebrae. São esses atores em seus territórios que nos apontam caminhos e o profissional da gastronomia precisa fortalecer esses vínculos”, destaca Teresa.  

Protagonismo e visibilidade

Foto: Maria Sol Silva

Ao lado do estímulo às mudanças nos hábitos alimentares e no fortalecimento dos laços entre os diferentes atores das redes de abastecimento alimentar, a articulação em rede foi destacada como fator fundamental à valorização da comida de verdade no Brasil. 

“Acredito muito na força da articulação em rede dos vários movimentos, unindo campo e a cidade. Aqui no Semiárido, a experiência da Articulação do Semiárido (ASA) é forte e tem garantido visibilidade diante de toda essa conjuntura em que vivemos. Temos conseguido fortalecer redes de agricultores junto com assessorias técnicas, além da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), que tem potencializado nossas experiências. São pessoas diferentes, em lugares diferentes, mas criando várias conexões para pensar um mundo mais soberano”, afirmou Roselita. 

Ariel destacou o uso da tecnologia para o fortalecimento das articulações em rede. “Os grupos são formados a partir de coesão social na sua vivência em grupo, que agora estão distanciados por conta da pandemia. Ao mesmo tempo, a capacidade de atuação em rede tem potencializado essa comunicação digital, que desde o começo da pandemia tem possibilitado maior contato entre as pessoas, que se tocam em um ponto e outro. O que precisamos fazer é descobrir as outras pessoas que estão do nosso lado, trabalhando com as mesmas atividades e pensar em propostas para quando sairmos da pandemia. E teremos forças para avançar com esses novos movimentos, novas relações entre campo e cidade”, destacou Ariel.

Para o pesquisador Arilson Favareto, além destes fatores, quando se trata de falar sobre as redes de abastecimento alimentar com oferta de comida de verdade, há que se destacar os rumos e as disputas de narrativas atualmente em curso, principalmente nas plataformas midiáticas. “A narrativa que se constrói hoje através da grande mídia, e endossada pelo mercado, está muito focada na perspectiva a curto prazo sobre como retomar o crescimento econômico. Um caminho restrito e limitado, quando poderíamos estar apresentando à população, de maneira geral, reflexões sobre como aproveitar a nossa base de recursos naturais e o nosso patrimônio histórico e cultural ao nosso favor. E que tem na comida os seus elementos fundamentais. Os debates para o pós-pandemia precisam focar nessa perspectiva”, explicou Favareto.  

Assista ao seminário “Territórios e sistemas agroalimentares sustentáveis”

Fonte: Ascom/Ação Coletiva Comida de Verdade
Foto de capa: Maria Sol Silva

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